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Casos Clínicos

Caso 7
Dra. Mônica Hoffmann (Enterovirose com meningoencefalite - Cocculus indicus)

E.A.F., masc., 5 anos.
Fui contactada por telefone pela mãe do menor que havia estado pouco antes numa Cliníca Pediátrica com quadro de febre alta, muita prostração, dores no pescoço e nas costas e forte dor de cabeça. De lá saiu com diagnóstico de amigdalite tendo alta com antibioticoterapia.

A mãe relatava ainda que E. apresentava um gânglio doloroso em região inguinal direita que o fazia andar com dificuldade e muita dor no abdômen, não se deixando ser examinado pelo médico. Dizia que o filho estava estranho, "como se com o olhar parado, fixo".

Ao escutar tal relato, dirigi-me à casa do paciente e, chegando lá, o mesmo apresentava-se completamente prostrado, com 39ºC de temperatura. O calor irradiava de seu corpo, e o olhar estava totalmente vago.

Gemia queixando-se das dores nas pernas, no pescoço e na cabeça, bem como de muito cansaço e de sentir-se "tonto".

Abdômen dilatado com dor à palpação.

Não suportava que lhe tocassem. Ficava extremamente irritado.

Havia acabado de vomitar "em jato" algo amarelado, e reclamava constantemente de boca amarga e enjôo ao se alimentar.

Pedia água para molhar a boca a todo instante.

Segundo a mãe, E. apresentou febre baixa e vinha se queixando há 2 dias de dores de cabeça e náusea ao comer, sendo que no dia anterior precisou ir para a enfermaria do colégio.

Completamente apático, porém mostrava estar bastante incomodado pelas vozes das pessoas que entravam em seu quarto.

Fui informada ainda que, pouco antes da febre aumentar, E. tentava jogar com seu pai um jogo da memória, o qual anteriormente dominava, mas errava tudo se dizendo esquecido, o que deixou os pais bastante preocupados.

Ao exame físico:
Otoscopia sem alterações.
Amigdalas levemente hiperemiadas, adenomegalia cervical, axilar e inguinal.
Rigidez e dor na nuca.
Kernig positivo
Brudzinski negativo
Abdômen levemente distendido, doloroso à palpação profunda, sem outros achados.

Com a hipótese diagnóstica de meningite, contactamos imediatamente o Dr. Paulo Terra e, ao chegarmos em seu laboratório, E. vomitou novamente em jato, dizia estar muito fraco, até que desmaiou e ao acordar tinha dificuldade em mexer os braços, se dizia extremamente cansado. Os membros estavam frios. Teve em seguida uma evacuação diarréica mal-cheirosa.

Ao chegar em casa continuou a evacuar e dizia estar muito tonto. A febre se mantinha alta. Tinha fome, porém, ao tentar comer mesmo que uma pequena quantidade, as náuseas voltavam e produziam vômitos. Dizia estar com as pernas fracas e não conseguia mexê-las, e estas, assim como os braços, estavam bastante frios.

Foi medicado com sintomáticos (antitérmicos), até obtermos o resultado do hemograma.
O laboratório evidenciou: Hem: 4.60 - Hg: 13,2 - Ht:39.1
Leuc:11.500 - basófilos: 0 eos: 0 mielo: 0 meta: 0 bast: 17% Seg: 49% Linf:30% Mon: 4%
Plaq: 335
Ptn C qualitativo - não reagente
Líquor:aspecto límpido
Citologia:120 céls.
Ptns: 30mg/dl
Gli: 58mg%

Sintomas repertorizados: (Repertório Synthesis)
1- Cabeça - Inflamação -- cérebro
1- Cabeça - Inflamação - meninges
2- Febre - ardente, calor
3- Mente - Tocado - aversão à ser
3- Generalidades - Toque - agr.
4- Estômago - Sede - pequenas quantidades, de - frequentemente
5- Estômago - Náusea - comer, ao
6- Extremidades - Paralisia - Frialdade das partes, com
7- Mente - Sensível - barulho à - vozes de

Notas:
A)Os sintomas foram repertorizados de acordo com a técnica proposta por Kent para os quadros agudos:
1- sintomas patognomônicos (1)
2- sintomas gerais (2 à 5)
3- sintomas particulares (6)
4- sintomas mentais (7)
B) A numeração repetida significa que uma rubrica foi somada à outra na repertorização.

Resultado:
Nux-v.,Bell.,Cocc., e também Rhus-t.

Em função do estado de prostração, fraqueza, paralisia e estado nauseoso, bem como da irritabilidade do S. N., Cocc. foi o medicamento escolhido.
Prescrição:Cocculus indicus 1 MFC em plus a cada ½ h.
Soro de reidratação oral.

Evolução:
O quadro começou a evoluir satisfatoriamente 2 horas após a administração da primeira dose, com melhora do estado de prostração e da febre, que ainda se mantinha em torno dos 37,5 ºC, bem como da dor de cabeça. Já pedia para brincar e comer, mas os membros continuavam paralisados e frios. No dia seguinte a febre desapareceu por completo, bem como os gânglios e os sinais de esquecimento. Permaneceram ainda os sinais de irritação (dor na nuca), a paralisia, bem como as queixas digestivas (diarréia, náusea), e daí uma dose de 10 M foi administrada (dose única). A paralisia desapareceu cêrca de 6 horas após a administração (já saía correndo fugindo do exame) e a temperatura dos membros também normalizou-se. A febre voltou a aparecer, mas manteve-se em 37 ºC por mais 3 horas. Uma segunda dose de 10 M foi necessária 12 horas após para controlar a diarréia e a náusea e fazer a dor e rigidez da nuca sumirem por completo.

Dra. Mônica Hoffmann

 

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