Caso
6
Dra. Eneida Favre (Amigdalite 2 - Mercurius cyanatus)
PCC,
38 anos, masculino, solteiro, branco, bancário.
A
primeira consulta foi em junho de 97. Queixava-se de hemorróidas
e problema de nervosismo. Tinha sido operado das hemorróidas
duas vezes nos últimos 10 anos, por estrangulamento dos botões
hemorroidários. Estava passando por nova crise dolorosa e
notava que o quadro piorava se ele resfriasse o corpo subitamente,
ou com mudanças bruscas de temperatura para o frio. Sentindo
dores ardentes e em pontadas agudas, que se estendiam para cima
no reto.
Muito
inseguro no trabalho na hora de tomar decisões; odiava quando
os chefes faziam comentários sobre ele, que deveriam ser
confidenciais, na frente de outras pessoas. Ficava remoendo as coisas.
Arrasado até aquela data por causa de um namoro terminado
há tempos: a namorada cansou de esperar que ele se decidisse
a casar. Muito indeciso em tudo, tanto no trabalho, quanto nos negócios
e na vida amorosa. Pareceu-me uma pessoa doce, de boa índole,
romântico, mas sem firmeza, medroso. Adora comer frutas. Adora
doces, mas pesam no estômago e não pode comer.
Na
época, prescrevi Ignatia amara porque aparecia na repertorização
cobrindo os sintomas locais, o sintoma geral e o quadro mental "superficial",
sem grandes análises. Com Ignatia amara, ele evoluiu bem,
com poucos episódios dolorosos ao longo de dois anos, e cada
vez em intensidade menor. No quadro mental, decidiu-se a comprar
um apartamento, no qual ele já estava de olho há tempos,
mas sempre com medo de assumir a dívida, que era bem dentro
do seu padrão financeiro. Não estava mais tão
aborrecido com os chefes no trabalho e aceitou um cargo onde teria
que executar um serviço completamente novo e mais elaborado,
sem ficar excessivamente ansioso com isso.
Após
9 meses sem retornar, marcou uma consulta de emergência. Chegou
ao consultório de carro, mas disse que nem sabia como tinha
chegado, e que achava que deveria ter ido direto para um hospital
porque estava muito mal mesmo. Disse que dias antes tinha tomado
um banho de água fria e que depois disso começou a
sentir a garganta doendo. Desde a noite anterior, queixando-se de
muita dor de cabeça, dor nos olhos, dor no peito, no corpo
todo, náuseas e vômitos. Não podia engolir nada,
nem saliva, tamanha a dor na garganta.
Contou
que 3 meses antes, tinha começado a sentir uma dor muito
forte na barriga, de repente, e resolveu ir ao hospital, tendo sido
internado e operado de emergência, com diagnóstico
de apendicite supurada. Falou um pouco na consulta e já teve
que ir vomitar. Vomitou outras vezes depois. Ao exame, paciente
em mau estado geral, cor de cera, pálido, pele fria, úmida
e pegajosa. Frio e calor alternando-se, estado como de colapso,
corpo úmido com cheiro de "suor velho", como nas
doenças consumptivas, como de doente de UTI. Náusea
constante por qualquer cheiro, vômitos, fraqueza, cambaleava
para andar, tontura. Encurvado, pálido. A língua apresentava
uma grossa camada de saburra branca sujo em toda a superfície,
exceto no meio, onde estava bem vermelha, formando uma listra longitudinal
estreita, no terço anterior. As amígdalas e a úvula
não estavam inchadas, mas apresentavam-se vermelhas, sendo
que as amígdalas estavam cobertas por pequenas aftas purulentas,
de fundo branco-esverdeado. Não senti cheiro muito forte
na boca. Lábios secos, mas a cavidade bucal estava úmida.
Sem febre, pulso regular e forte, pressão arterial normal.
O que
mais chamou a atenção foi o intenso quadro toxêmico
com fraqueza, que não condizia com o estado de inflamação
da garganta, que era a queixa principal. Quando o vi naquele estado,
mal daquele jeito, pensei que tinha que repertorizar o quadro agudo.
Tomei
como sintomas, as náuseas, o vômito, a face pálida,
a inflamação das amídalas, a língua
branca, os lábios secos, o aparente colapso e principalmente
a fraqueza que não condizia com o quadro inflamatório.
Na rubrica "Fraqueza nas doenças agudas", encontrei
Mercurius cyanatus como um dos remédios. Li rapidamente sobre
ele na Matéria Médica, e o que chamou a atenção
foi principalmente o quadro de prostração intensa
que ele apresenta nas doenças agudas, acompanhado de náuseas
e vômitos, e o fato de ter seu tropismo para cavidade oral
e garganta.
Pedi
que o farmacêutico providenciasse rapidamente o remédio
e ele o tinha na SD 1. Em meia hora iniciamos o tratamento no consultório
mesmo, porque, a essa altura, o paciente não tinha mais a
menor condição de se locomover. Ficou sentado na sala
de espera, enrolado num cobertor, e a secretária ficou administrando
o remédio de 5 em 5 minutos, 5 gotas cada vez.
Uma
hora mais tarde, já o encontrei de pé, no jardim do
consultório. Estava com a temperatura corporal mais elevada
e mais corado. Meia hora mais tarde, examinei-o de novo. Não
estava vomitando mais, a temperatura era de 37 º C, estava
corado e aceitou um gole de chá, coisa que ele nem podia
ver quando chegou pois vomitava. Aceitou outro gole de chá
e disse que achava engraçado que a garganta não estivesse
doendo mais. Fui examiná-la, e qual não foi o meu
espanto ao constatar que a amígdala esquerda estava completamente
limpa, e a direita apresentava apenas uma das aftas que mencionei.
A língua ainda estava branca, mas a espessura da capa de
saburra estava visivelmente mais fina, e a região central
de mucosa normal havia se ampliado consideravelmente. A dor no peito
também tinha regredido completamente. Ou seja, em duas horas,
ele saiu dirigindo e estava até sorrindo e brincando com
o fato de ter chegado quase morrendo, segundo ele.
Como
não tivesse me ligado no dia seguinte, como pedi, dois dias
depois eu lhe telefonei para saber como tinha sido a evolução,
e ele disse que tinha continuado a usar o remédio de meia
em meia hora como eu havia falado, durante umas duas horas, mas
depois dormiu e acordou muito bem, não tendo havido recidiva
do quadro, mesmo tendo ele parado completamente de tomar o remédio
naquele mesmo dia.
Nota
- A Dinamização Especial (SD) foi desenvolvida pela
Fundação de Estudos Homeopáticos do Paraná,
a partir da necessidade que o Dr. Gamarra encontrou na utilização
de altíssimas dinamizações no tratamento de
pacientes com câncer e AIDS, pois o dinamizador levava vários
dias para preparar uma altíssima dinamização,
e muitas vezes, essa perda de tempo era crucial no tratamento do
paciente. A SD é preparada a partir da CH 4, procedendo-se
à diluição de 1/100 x 1/1000 = 1/100.000, intercalando-se
100 sucussões a cada diluição. Várias
farmácias em Curitiba estão habilitadas a preparar
essas dinamizações, e inclusive a preferem à
LM, pela facilidade de manipulação se comparada àquela.
Tenho por norma prescrever sempre LM, mas já me deparei com
situações em que a farmácia tinha a medicação
em SD e não tinha a matriz para LM, e eu usei a SD com resultados
muito bons, como no caso acima.