1a.
consulta - 29/04/99
O que a trouxe aqui?
Problema de PA. Tive uma crise de pressão alta durante um
trabalho que a gente faz nas escolas durante o carnaval.
Tenho dor de cabeça constante. Tive enxaqueca há uns
anos atrás, melhorei, mas agora estou voltando a ter dor
de cabeça. Quando vou ver a pressão, está alta.
Dói a cabeça em várias partes e chega a ficar
dolorido até no pescoço como se eu estivesse com torcicolo.
Carrego muita tensão no ombro e nas costas (alguém
que trabalha com massagens já me perguntou se estou carregando
o mundo nas costas).
Junto com a dor de cabeça me dá esmorecimento, calor,
frio, ânsia de vômito, às vezes vem bílis.
Numa dessas crises me deu muita cãibra.
Tenho muitos aborrecimentos mas as crises vem independente disso.
Dessa vez, por exemplo, eu estava na Bienal, não tinha tido
aborrecimento. Meus aborrecimentos são devido ao comportamento
dos filhos: não é que eu seja moralista, mas tem coisas
que me afetam, por exemplo, minha filha ou minha nora que saem de
casa e rompem com valores da família. Prejudicar, lesar os
outros, é difícil aceitar meus filhos fazerem isso.
Tenho dor mais na junta do ilíaco esquerdo.
Tenho dor no peito, é nessa região (superior do esterno).
Tenho queimação no estômago.
Tenho muita dificuldade de me concentrar, de me organizar.
Sinto muita ansiedade. Me percebi assim quando ia fazer uma viagem.
Me peguei de madrugada acordada com aquela preocupação,
mas eu lutava contra isso. Às vezes, quero me conter de fazer
alguma coisa...Tenho muitas atividades e às vezes a gente
não dá conta de tudo.
- Como
percebe que está ansiosa?
Às vezes a pessoa está falando comigo e eu atropelo
a pessoa (falando) antes dela acabar de falar. Não gosto
disso em mim. Gosto muito de ouvir. ... Às vezes ela (a depressão) quer voltar mas a gente
reage contra ela.
- Como
começou essa depressão?
Começou com uma decepção muito grande. Eu aguardava
uma coisa e aconteceu outra. Não sabia que era uma doença...
Eu prejudiquei muito meus filhos... a educação deles...
Depois veio o resultado. Tinha muitas dificuldades comigo mesma
e cobrava muito dos meus filhos. Atualmente essa falha na educação
dos meus filhos me causa muitas dificuldades.
Meus pais tinham princípios antigos mas eram muito amorosos.
Eu recebi esses valores mas eu não conseguia passá-los
para os meus filhos. Eu exigia e cobrava muito deles e isso fez
muito mal. Faz efeito contrário. A gente só exige,
não dá mais nada.
- Como
foi essa decepção? O que a Sra. esperava mas não
aconteceu?
Meu marido tinha uma Farmácia. Adoeceu e passou 3 anos no
hospital. Eu me dedicava muito a ele. Ele tinha dependência
química...Estou me perdendo na concentração...Ele
estava com problema de pulmão e não havia mais recurso
para ele. Tínhamos uma situação financeira
sólida e quando o médico o desenganou, falei para
médico que ia lutar para comprar os remédios do meu
marido. Consegui os remédios, ele voltou para casa e recomeçamos
a fazer planos. Tivemos mais 3 filhos. Eu tinha esperança
de voltar a trabalhar junto com ele e reabrimos a farmácia.
Lutei muito para isso. Quando ele voltou para o trabalho eu me senti
jogada porque achava que a gente ia trabalhar junto. Eu não
aceitava e começou a depressão terrível. Fiquei
perdida porque antes ele cuidava dos filhos. É como se a
casa tivesse vindo abaixo. Aquela avalanche tinha caído em
cima de mim. Mas com a fé e o meu trabalho, consegui me reerguer.
- Se
sentiu jogada como?
Como quem foi usada, traída. Isso é coisa da gente
mesma. A gente sonha, faz castelos de Cinderela... Isso que aconteceu,
não tenho que culpar ninguém... Foi criada uma imagem
por mim sem base na realidade. Quando a gente se doa cegamente,
o outro não tem culpa. Compreender isso me liberta de um
sentimento negativo com relação ao meu esposo. Ele
faleceu em 85.
A gente ama e se doa, porque isso não satisfaz. Mas a gente
não pode cobrar do outro o que ele não pode dar. Digo
para as pessoas que gostam muito de mim:- Não me vejam como
uma pessoa perfeita porque eu posso te trazer decepção.
Às vezes a pessoa se liga demais na gente...
Todo mundo que tinha um problema eu achava que era meu: absorvia,
ficava tentando ajudar a pessoa.
- Fale
mais da Sra...
Eu amo a vida: meus amigos, minha terra, minha pátria. Tenho
muito amor por tudo e para todos.. Não o suficiente para
mudar o mundo...para me mudar, bastante, para ajudar os outros e
às vezes até prejudica.
- Prejudica
como?
Eu tinha um filho que era viciado em jogo e eu não conseguia
entender que ele era um adulto e tinha que assumir aquilo. Minha
filha tem uma compulsão por compra. Isso é porque
eu não soube educá-la. Aí eu acabo ajudando.
Faço isso porque fico aflita. Faz parte da minha ansiedade.
Eu não tenho poder de iniciativa e minha filha tem. Ela pede
para comprar alguma coisa no meu cartão. Ela mente e não
tenho forças para negar... de mim mesma eu tenho essa dificuldade
de negar.
- O
que acha que aconteceria se negasse?
O melhor possível para ela. Mas me sinto na obrigação
de atendê-la. Tenho dificuldade de tomar decisão e
sofro muitas críticas por isso, por parte do meu irmão
que me cobra. Minha vida seria bem melhor se eu pudesse tomar atitudes
porque não daria nem brecha para isso acontecer. Se tem uma
coisa para consertar, eu fico adiando. Fico pensando e não
consigo realizar. Vou aceitando outras interferências. O problema
é meu.
Meus filhos me causaram muitas decepções, mas foi
devido a educação que eu dei. Mas eu não me
culpo porque não foi por não querer, mas por não
conseguir. Sei que dei o melhor de mim.
Eu vim porque quero cuidar da minha saúde para poder trabalhar
até o último dia que eu estiver aqui.
- Por
que trabalhar é tão importante?
Eu me realizo com o trabalho, me faz muito bem. Me sinto útil.
Não é por dinheiro. É por uma realização
espiritual de poder ser útil no pouco que eu sei fazer. Essa
ansiedade de realizar eu tenho, mesmo quando estou doente.
- Como
é essa ansiedade?
Momentos de muita impulsão. Dá vontade de correr para
um outro lugar. Noutro momento, eu fico parada por causa dessa minha
indecisão que me impede de fazer o que eu gostaria de fazer.
Por exemplo, um livro, tenho dificuldade de chegar ao final. Estou
lendo um livro, vejo um outro que tem uma leitura boa... me embolo
e isso me prejudica.
- Como
é o seu apetite?
Meu apetite é normal. Não tenho conhecimento para
dizer se minha alimentação é a ideal. Se meu
estômago está satisfeito, não como. Gosto de
laranja, sapotí, uva bem docinha, pêra. Carne me faz
mal.
Esqueço de beber água. Não bebo nem 1 litro
por dia.
- Como
é a sua transpiração?
Andei um tempo com suor nos pés mas agora está melhor.
No calor, transpiro demais. É um calor fora do normal. O
suor é muito intenso na parte superior do corpo ( aponta
da mama para cima). Tenho mau-hálito. Cheiro nas axilas,
na vagina. O suor dos pés também tinha cheiro.
Não gosto de calor. Me dá mal-estar.
- Como
funciona o seu intestino?
O intestino funciona todos os dias mas com uma certa dificuldade.
Quando viajo, prende mais. Para funcionar normal (sem dificuldade,
sem esforço), tenho que comer mamão, laranja ou tomar
algum remédio.
- Como
é o sono?
O sono tem andado curto ultimamente. Acordo antes das 6:00hs e durmo
bem tarde: o mais cedo que eu durmo é meia-noite. Acho que
é por causa do hábito de ler. Eu gostaria de dormir
mais, mas não consigo. Aí vou ler ou ver um programa
no quarto mesmo. Depois do almoço sinto vontade de deitar
um pouco, mas agora se deito, não durmo.
- E
os sonhos?
Sonhos: ultimamente tenho tido mais dificuldade de sonhar ou de
lembrar dos sonhos.
Pesadelo: Estou num lugar que está quebrado, caindo. Estou
em cima de uma ponte que está toda podre e um movimento que
eu faça, ela vai se desfazendo. Sinto aquilo como uma realidade.
Começo a me lembrar de Deus e vejo que é um sonho.
Tenho sonhos com a natureza, com as crianças.
- Tem
medo de alguma coisa?
Medo? Quase não conheço essa palavra. Já tive
um medo terrível: subi a escada para ver uma obra, mas na
hora de descer eu não conseguia. Fiquei me segurando no ferro
para não cair. Mas me trabalhei e consegui descer.
Quando criança subi numa mangueira e não conseguia
descer, com medo.
Quando a gente vai fazer um plano, fica aquela coisa: será
que vai dar certo?
Quando fui viajar de avião e vi a máscara de oxigênio,
mentalizei a falta de ar e fiquei com um pouco de medo, mas me trabalhei
e foi tudo bem.
H.P.P.:
Catapora, sarampo na infância
Cesariana do filho mais novo
Depressão aos 30 e poucos anos
Alteração da P.A. há mais ou menos 8 anos.
P.A.: 140 x 90 mm Hg.
Solicitado:RX Tórax
Lipidograma
Teste Ergométrico
ANÁLISE DO CASO
TemasIndecisão
Impotência
Altura (sonho/medo)
Consente exageradamente
Resignada
Servil
Calor
Religiosidade
Culpa
Ausência de sede
Sintomas
repertorizados:Mente - condescendente - disposição
Mente - ilusão que fez algo - errado
Sonhos - caindo - altura + Mente - medo - lugares altos + medo -
baixo, de movimento para + Vertigem - altos, lugares
Geral. - Alimentos e Bebidas: carne, piora com
Medicamentos surgidos na repertorização: Ars, Lyc,
Puls, Sil, Sulph
Observação
prognóstica:
Paciente funcional, espera-se uma melhora sem agravação.
Entendimento
obtido pela análise da Dinâmica Miasmática:
Como sofre? Como reage?
Paciente predominantemente psórica. Sofre quando fala: A
gente ama e se doa, porque isso não satisfaz...Foi criada
uma imagem por mim sem base na realidade. Quando a gente se doa
cegamente, o outro não tem culpa.
Sonho: Estou num lugar que está quebrado, caindo. Estou em
cima de uma ponte que está toda podre e um movimento que
eu faça, ela vai se desfazendo. Sinto aquilo como uma realidade.
Começo a me lembrar de Deus e vejo que é um sonho.
Fala que seu amor não é suficiente para mudar o mundo
para consertar. Este seria seu primeiro intuito reativo para a egotrofia.
Sua principal reação egotrófica é no
sentido de ajudar os filhos e a outras pessoas. Na ególise,
entra em depressão.
A hipótese de entendimento do seu sofrimento baseia-se na
falta de retribuição desse amor que é transmitido
aos demais.
Prescrito:Pulsatilla 1MFC - 01 pp
Pulsatilla 1MFC - 0,12gr - 02 pela manhã e 02 à noite.
1o.
Retorno - 17/06/99
O
remédio fez um efeito muito bom. Tive uma melhora muito grande.
Melhorei de uns 60 a 70%. Somente a memória é que
não teve aquela eficácia...
Tive dores de cabeça muito intensas. A PA também melhorou.
A cãibra melhorou bastante.
Meu sono. Eu acordo e não durmo mais. Eu não tinha
essa dificuldade, dormia até em condução, facilmente...
Melhor da queimação no estômago e o ressecamento
na garganta.
O problema do fígado que eu tinha, como se tivesse dobrando
ou amarrando o fígado e aí vinha aquela água
na boca, melhorou bastante. Isso não era freqüente,
mas incomodava.
Tive uma dor na cabeça como se tivesse levado uma pancadinha...
A dor daqui (sacro-ilíaca) melhorou bastante. Agora é
muito difícil de dar.
A memória não melhorou e é fundamental para
mim, porque às vezes vou falar uma coisa e esqueço
o que ia falar, recado... Não sei se faz parte de uma esclerose
ou se é hereditário... Esqueço o que vou falar.
Tenho dificuldade de organizar as frases, os pensamentos, de externar.
Tenho problema de esquecimento desde a infância, com a idade
piorou mais. Vou pegar algo num lugar, esqueço. Abro a geladeira,
não sei mais o que ia pegar. Sempre que vou ao pastor da
Igreja, peço um remédio para memória. Não
sei se é lerdeza de raciocínio. Deve ter outras coisas
que esqueço, mas não lembro agora.
As dores de cabeça foram no alto da cabeça. Antes
eram enxaqueca e agora não foram tão intensas. Antes
eu ficava mais de 10 dias direto, não passava mesmo com remédio
(acho que era da PA). A freqüência melhorou mais de 50%
e com ½ comprimido de Tylenol, melhora. Nesse período
só tomei Tylenol 3 vezes.
Na hora que vou pentear o cabelo, percebo como se tivesse um machucado
ou uma pancadinha num lugar só. Não é fixo
num lugar, modifica, muda. Meus olhos incham e ficam empapuçados
e tenho palidez. Calculo que pode ser problema digestivo ou de rins.
Fora isso só tive rompimento de vazinho umas 2 ou 3 vezes.
Não tenho medido a PA e no dia da dor de cabeça, meu
filho mediu e estava bem. Estava 140 x 80 mmHg. Nesse período,
não tomei nenhum outro remédio.
A dor no peito nem me lembrava mais. Acho que a maior porcentagem
de melhora foi de ansiedade. Estou mais calma, mais confiante...
Quando vim aqui já estava com esse problema do sono. Isso
já tem mais ou menos 1 ano. Talvez seja porque fico vendo
uns programas à noite e acabo não dormindo direito.
Devido a minha ansiedade, acordo e não durmo mais. Isso melhorou
um pouco.
O apetite anda bem, sem alterações nesse período.
Tive um resfriado forte mas tomei mel de abelha com limão
e melhorei. Sei que muita gente foi derrubada com essa gripe, e
eu não.
O calor, até esqueci dele. Acho que não aconteceu.
A transpiração melhorou bastante. Quase não
notei.
Tive um sonho: estava escalando uma pedreira e colocando uns ganchos
como um alpinista. Eu estava com grande dificuldade nessa escalada,
era uma descida, mas acabei sendo feliz porque não teve uma
conseqüência maior. Não foi aterrador como das
vezes passadas.
Quando vou ler, vou acompanhando o texto, e me desligo por qualquer
coisa, tenho grande dificuldade de encontrar o lugar onde parei
para continuar. Tenho muito afetada essa capacidade de encontrar
o que estou procurando e isso me faz sofrer muito. É uma
dificuldade muito grande de memória.
Sempre li muito. Não sei se isso tem prejudicado minha mente.
Eu gosto muito de ler. É uma atração muito
grande por ler. Não sei se é porque não tive
oportunidade de estudar quando criança. Tenho tipo um vício
de ler. A leitura me traz muitas coisas boas. Minha religião
é muito rica de literatura: leio as obras básicas
da minha religião, romances, gosto de me informar sobre coisas
boas. Não gosto de ler coisas que mexam com minha parte emocional:
violência, guerras, coisas que a gente não pode cooperar
para melhorar.
A situação em casa com os filhos tem melhorado. Depende
da gente entender que os pensamentos são diferentes. Fui
criada com rigidez e amor. Não é aquela rigidez fria,
distante... Tenho dificuldades mas tenho feito tudo para aceitar.
- Na
consulta passada a Sra. falou que sentiu medo uma vez que subiu
uma escada... Sentiu medo de quê?
Não ia conseguir descer sem acontecer alguma coisa. Me senti
desamparada. No pesadelo nas tábuas frágeis, eu também
me sentia desamparada. Acho que fiz essa relação inconsciente.
Quando aparece a dor de cabeça, espero para ver se passa.
Se não passar, tomo o comprimido. Só uma dessas vezes
que deu a dor de cabeça à noite, eu pensei que foi
porque carreguei bolsas pesadas de dia. Mas nesses dias carreguei
peso de novo e não doeu a cabeça.
No entardecer, às vezes sinto um pouco de melancolia. Agora
já estou bem melhor. Nesse período quase não
tive.
- Que outras coisas a Sra. esquece ( além do que vai falar
)?
Esqueço os números, os nomes das pessoas, isso me
causa até constrangimento... Mas de um modo geral, escrever
flui bem.
Raio
X de tórax ( 14/05 )
- Discretas lesões de aspecto fibronodular no terço
sup. do pulmão esquerdo.
- Ausência de infiltrado inflamatório
- Seios costo-frênico livres
- Área cardíada nos limites normais
- Alongamento discreto da aorta.
ECG
-- Antes do Teste Ergométrico: Compatível com normalidade.
- Após Teste Ergométrico: sem alterações
significativas comparando ao ECG de base.
Ausência de distúrbios de condução.
Teste Ergométrico suspenso no 3o. estágio no 2o. minuto
devido à exaustão física. Ausência de
Arritmia durante a fase de esforço. Conclusão: Teste
Ergométrico anormal por Hipertensão Arterial vaso-reativa.