01-
Atendimento 24 horas na Clínica Veterinária Homeopática
Elias
Carlos Zoby
Médico Veterinário Homeopata -Clínica Hahnemanniana
de Animais
R. Mário Carpenter, 5/112. Santos - SP - Brasil 11055-250
O que
vou falar a seguir é derivado de minha experiência
pessoal, fruto de minhas capacidades e limitações,
que podem não ser as de outros. Não farei qualquer
pesquisa bibliográfica, nem mesmo revisarei arquivo de pacientes.
Mais ou menos como ocorre num serviço 24 horas, que os pacientes
chegam e a gente nunca sabe se o próximo caso será
um animal que levou um cortezinho na pata ou está em insuficiência
cardíaca aguda.
Atender
urgências sempre foi minha preferência. Meu primeiro
trabalho remunerado foi um plantão noturno numa clínica
em Jacarepaguá/RJ. Nos inícios de 1986, eu tinha de
matar as aulas da tarde na faculdade para sair correndo e chegar
em tempo à clínica, eu estava no último semestre
de veterinária na UFRuRJ. Pegava dois ônibus e um trem.
Atendia com alopatia e pela manhã saía de lá
direto para um estágio na Gávea com um dos primeiros
e melhores veterinários homeopatas deste país, Dr.
Paulo Carrera. Nesse período eu fazia tantos estágios
e plantões que não sobrava tempo de ir a algumas aulas.
Mas a urgência sempre foi minha paixão e depois veio
a Homeopatia. Por fim acabei juntando as duas.
O atendimento
pela Homeopatia em sistema diuturno traz uma contribuição
imensa a toda a classe porque, entre outras coisas, desmistifica
a crença de que Homeopatia é demorada, age por sugestão,
só serve para doenças leves etc.. O papel do veterinário
homeopata nesses casos se faz gigantesco.
Minha
clínica funciona 24 horas mas a clientela diurna é
totalmente diferente da noturna. Durante o dia as pessoas me procuram
pela Homeopatia, casos crônicos na quase totalidade com problemas
de pele. À noite as pessoas vêm porque eu atendi o
telefone primeiro, ou fui o único que atendeu, ou sou o veterinário
mais perto... só por coincidência falam em Homeopatia.
E trazem o que vai a qualquer pronto-socorro: problemas respiratórios,
cardíacos, dores, paralisias súbitas ou não,
acidentes, partos etc..
O que
está abaixo é principalmente sobre as urgências
noturnas e nos feriados, quando as limitações logísticas
e de auxílio são maiores.
A -
Peculiaridades, problemas e dificuldades:
A.1
- Material necessário
Todo
o material de qualquer outro local de atendimento alopático,
somado a uma variedade de medicamentos dinamizados. É preciso
ter condições de fazer frente à urgência,
ter acesso à anestesia, cirurgia, corticosteróides
etc..
Os
antibióticos têm sido de pouca valia nesses casos,
acredito que pelo fato deles não terem uma ação
imediata e o tempo que eles levam para agir não ser inferior
ao que qualquer homeopata leva para encontrar um medicamento que
atue. Mas fico muito preocupado quando tenho de atender urgências
noturnas sem ter corticosteróides disponíveis, eles
realmente aliviam em alguns casos num tempo menor do que eu levo
para encontrar um remédio homeopático. Assim mesmo
um frasco com 10 ML dura mais de um ano.
Isso
não quer dizer que em certos casos eu use primeiro alopatia,
não. Se tenho sintomas característicos, ou vejo a
semelhança patogenética, dispenso qualquer alopático
sem medo ou remorso.
Nunca
consegui fazer isso em casos de eclâmpsia porque o diagnóstico
é muito fácil e a aplicação de cálcio
e.v. atua mais rapidamente do que o tempo que eu levaria fazendo
uma anamnese. Depois eu procuro encontrar o medicamento 'de fundo'
para evitar recidivas. Não sei se algum dia chegarei a dispensar
o cálcio nesses casos, mas se um dia tiver sintomas característicos
prontamente visíveis usarei o medicamento homeopático
primeiro.
Uma
contribuição muito grande a esse pronto atendimento
é o uso dos programas de repertorização. Quando
alguém toca a campainha à noite e vejo um animal prostrado,
primeiro abro a porta e a seguir ligo o computador já com
o repertório e matéria médica abertos. Só
depois cumprimento a pessoa.
A.2
- Anamnese
Esse
é um ponto sempre maleável. No início de minha
prática tendia a tomar anamneses completas em qualquer caso.
Logo aprendi que as pessoas que vêm durante a noite não
estão com cabeça para falar muito, alguns não
conseguem nem dizer porque vieram, jogam o animal caído na
mesa e dizem "t'aí".
Hoje
eu pergunto o que foi que houve, como começou, as atitudes,
reações durante o processo e o que for preciso para
chegar a um diagnóstico. Se o tempo permitir procuro obter
modalidades de agravação e melhoria (posição,
movimento passivo e ativo etc.), causa desencadeante, condições
climáticas, sede, características das secreções
e dejetos, cor das mucosas, sinais peculiares etc. Limitando-me
ao quadro atual, mas se o cliente menciona algum sintoma crônico
e este se harmoniza com o quadro atual para formar uma imagem medicamentosa
eu o utilizo. Se o crônico parace destoar do agudo, pego só
o último.
E os
sentidos 'a mil', o olho procura todo e qualquer sinal estranho,
o ouvido e o olfato de prontidão.
Tenho
reparado que os sintomas da sede são muito úteis nos
casos gastroentéricos, mas de menor serventia nos outros.
As modalidades climáticas têm sido úteis com
mais frequência nos casos de dores musculares, ósseas
e casos ortopédicos não cirúrgicos em geral.
As modalidades de posição e movimento, desejo e aversão
a frio e calor são igualmente úteis em todos os casos.
Aqui faço uma diferenciação entre desejo/aversão
a frio e calor e as modalidades climáticas. Estas referi
à relação com o cosmo, umidade do ar etc..
O desejo/aversão a frio e calor estou colocando como a preferência
do animal por uma cama quente, ou deitar no chão, ou ficar
em frente ao ventilador etc. independentemente do clima ou estação
do ano.
A.3
- Credibilidade e experiência
No
início alguns clientes diziam que não queriam o atendimento
Homeopático e eu aceitava. Um dia veio um cão com
um quadro gástrico, cujos detalhes me fugiram da memória,
e sintomas muito característicos de Arsenicum album. A proprietária
disse que usasse alopatia mas era um quadro tão nítido
que não tive dúvidas em dizer que se ela ia decidir
o tratamento, procurasse outro. Como era realmente grave e urgente
a filha a convenceu a aceitar minha escolha e a melhora foi espantosamente
rápida, obviamente. Essa foi a última cliente que
pediu para usar alopatia.
Penso
que a credibilidade da Homeopatia nesses casos é a credibilidade
do médico. Se o cliente sente segurança, não
lhe importa muito o que vai ser usado. Mas o cliente só sente
segurança se o médico sentir, é algo inconsciente,
não adianta querer fingir-se de seguro porque o subconsciente
perceberá.
Portanto
acho que em vez de treinar posturas 'seguras', atitudes positivas
etc., é mais útil estudar matéria médica
dos 'pequenos' medicamentos, aqueles que quase só têm
um quadro clínico descrito mas quando esse quadro aparece
ele faz o 'milagre'. Isso supondo que os policrestos já sejam
conhecidos.
Eu
havia estudado merc-c mas nunca tinha visto um quadro característico
dele que não fosse coberto também pelo solubilis.
Então veio um paciente com uma terrível cistite, a
cliente já estava vindo de outra clínica (tinha usado
antibióticos de monte), hematúria, enorme e frequente
tenesmo vesical e retal concomitantemente. Então devo ter
aberto um enorme sorriso porque me lembrei que aquele era exatamente
o quadro de merc-c. Dei uma dose na 30 CH e acho que mandei alguns
glóbulos mais para ela dar em casa. No dia seguinte ela me
ligou para dizer que o cão estava bem.
Outro
cão, assim que foi posto na mesa fez uma enorme hemoptise.
Se tivesse mais duas daquela correria risco de hipovolemia. Já
estava com o computador ligado, claro, e repertorizei rapidamente
as características do sangramento. Não consegui diferenciar
entre Ipeca e Millefolium, dei os dois e não teve mais sangramento
nos próximos dias, ficou normal outra vez. Depois o proprietário
não manteve mais contato e não sei o que se passou.
Essa é uma característica desses casos, poucos permanecem
como clientes, vêm mesmo pela urgência.
Chegou
uma moça com uma caixa grande dentro da qual havia 2 filhotinhos
de cachorro, talvez nascidos há uns 13 dias se muito. Um
deles já morto e nem perdi tempo com ele, o outro arfando,
boca aberta, cianótico... Síndrome de asfixia do recém
nascido, a taxa de mortalidade é altíssima, mais de
90%. Dei Ant-t, esperei cerca de 5 a 8 segundos e não melhorou,
dei Laurocerasus e a melhora foi quase instantânea.
A.4
- Formação do homeopata
Nós,
veterinários, temos menos dificuldades em aprender porque
a clínica veterinária funciona para todos os casos.
Se um animal sofre um acidente na rua, as pessoas levam ao veterinário
mais perto e não ao pronto-socorro central.
Mesmo
assim é difícil aprender sozinho, sem um colega mais
experiente ao lado que diga qual medicamento atua melhor naquele
caso com aquele sintoma. Acabamos levando mais de 10 anos para aprender
o que poderia ser aprendido em 3.
A maioria
dos cursos não supre uma adequada formação
para que o clínico saia exercendo a Homeopatia no pronto-socorro,
dificilmente o recém formado consegue exercê-la até
nos casos crônicos.
Faz
falta um sistema de aulas práticas para receber urgências
e isso não se ensina fazendo consultas com hora marcada.
Precisamos de clínicas veterinárias escola nas quais
os alunos após completar o curso teórico-prático
passem mais 2 ou 3 anos como residentes orientados por homeopatas
experientes trabalhando como o fariam em qualquer outro lugar.
Isso
parece um tempo longo demais se não for levado em conta que
Homeopatia não é um ramo da medicina tradicional,
é outra medicina. São outros os parâmetros de
semiologia, prognóstico, diagnóstico, terapêutica
e cura. Ora, qual o problema que um alopata vê em tratar um
eczema crônico num paciente com enfisema pulmonar?
A.5
- Medicamentos e farmácia
Tenho
na clínica mais de 120 medicamentos diferentes, todos os
policrestos e outros 'pequenos', muitos em mais de uma dinamização
dando um total de quase 200 frascos e mesmo assim ainda chegam casos
cujos sintomas indicam um medicamento que eu não tenho. Hoje
isso já é mais raro, mas ainda chegam. Um alopata
pode trabalhar qualquer caso com 10 ou 15 drogas no máximo,
nós não podemos.
A enorme
variedade de medicamentos necessários na clínica é
uma de nossas limitações. Diversos desses frascos
serão abertos apenas uma vez em 20 anos, ou nem isso. Mas
quando chegar a vez dele será insubistituível. Nos
primeiros 10 anos de minha prática acho que prescrevi Stram
apenas 2 vezes, ambas em urgências psiquiátricas noturnas
e atuou como mágica de tão rápido.
A questão
da farmácia é um fator importantíssimo. Já
tive algumas urgências, precisando de medicamentos pouco usados...
e não consegui farmácia para fazer um Cadm-s por ex..
A única que fazia só estava disposta a ir até
20 CH de imediato.
Num
sábado pela manhã atendi um cão com insuficiência
cardíaca descompensada, a proprietária é médica
homeopata e já havia dado diversas doses de Ars 6 CH... levou
a um alopata depois e nada dele melhorar. Fiz a anamnese e... só
saía Ars. Prescrevi Ars 100 CH, não me lembro se em
dose única mas certamente foram poucas. À tarde ela
me disse que o cão já estava melhor. E se fosse Cadm-s,
ou Chr-ac?
Acho
que as farmácias poderiam cobrar mais por esses medicamentos
pouco usados em dinamizações mais altas. Afinal eles
têm um custo grande. Uma farmácia é um comércio.
A maioria dos proprietários só vai querer colocar
no estoque aquilo que lhe dê lucro e de preferência
logo. Chr-ac 100 CH ou 10.000 FC não dá lucro. Por
que não cobrar a mais por isso? Afinal se o clínico
não tem o medicamento é obrigado a recorrer à
alopatia, com um custo maior e resultado inferior. Tratem a prescrição
para o filho dos outros como se fosse para seu filho!!
Hahnemann
recomendava que o médico fizesse seus medicamentos, hoje
isso não é viável. Mas os farmacêuticos
precisam ter consciência de sua importância, da importância
de cada medicamento, da correta dinamização, do choque
contra anteparo semi-rígido e das 100 fortes sucussões
que não devem ser substituídas por 100 chacoalhadas
no ar. Sem os farmacêuticos a Homeopatia brasileira entra
em apnéia!!
A solução
por enquanto é aumentar o estoque farmacêutico da clínica.
Mas aí fica difícil manter o acordo de Clarke (J.
H. CLARKE dizia ter um acerto com o farmacêutico: "eu
não vendo remédio e ele não passa receita").
Tenho mantido o acordo. No entanto logo, logo terei um grande estoque.
Para ser usado apenas nas emergências? Minhas prescrições
são em sua grande maioria de uma ou poucas doses. E no horário
comercial, vou pedir para o cliente ir até a farmácia
mesmo tendo o medicamento ao alcance da mão?
B -
Resumindo:
A Homeopatia
pode e deve atender em regime de 24 horas todos os tipos de urgências
médicas mas é necessário ter a disponibilidade
de alguns medicamentos alopáticos (para suprir a limitação
do médico) e de cirurgia. Os pontos limitantes são
a deficiência na formação do homeopata e o estoque
farmacêutico.