08-O
parágrafo nove e sua influência na concepção
Aristotélico-Tomista
Conrado
Mariano Tarcitano Filho
Ao
propor uma metodologia na qual a concepção aristotélico-tomista
de homem é posta em relevância, Masi Elizalde procura
mostrar todos os questionamentos feitos a partir de meditações
realizadas nos últimos 30 anos de sua vida à partir
das leituras de Hahnemann, Allen, Kent, Hering e Ghatak, dentre
outros, tentando responder às seguintes questões:
1-Por que o homem se enferma?
2-Como o faz?
3-O que é, realmente, a condição de enfermidade?
4-Sua dimensão é total ou parcial?
5-Existe a saúde?
6-Como alcançá-la?
Ele busca solucionar tais questões à partir do entendimento
de que o homem é um composto substancial de alma e corpo,
indivisível e a colaboração do espírito
no problema da enfermidade, fato que é rechaçado
pelo cientificismo mecanicista que impregnava o saber médico
em sua época e ainda está presente. Tal concepção
encontra no parágrafo nove do Organon uma base de sustentação
que torna clara a influência que este texto do fundador da
homeopatia tem na proposta elizaldeana. Neste parágrafo,
Hahnemann nos diz que no estado de saúde, a força
vital de natureza espiritual (autocracia), que dinamicamente anima
o corpo material (organismo), reina com poder ilimitado e mantêm
todas as suas partes em admirável atividade harmônica,
nas suas sensações e funções [grifo
nosso], de maneira que o espírito dotado de razão,
que reside em nós, pode livremente dispor-se desse instrumento
vivo e são para atender aos mais altos fins de nossa existência.
Tal
influência não pode ser desvinculada do parágrafo
quinze do mesmo livro no qual a presença do composto substancial,
onde Hahnemann fala que a afecção do dinamismo (força
vital) de natureza espiritual, que anima nosso corpo no interior
invisível, morbidamente perturbado, bem como todos os sintomas
exteriormente observáveis por ele produzidos no organismo,
e que representam o mal existente, constituem um todo, um e o mesmo
organismo. O organismo, é, na verdade, o instrumento material
da vida, não sendo, porém concebível sem a
animação que lhe é dada pelo dinamismo instintivamente
perceptor e regularizador, tanto quanto a força vital não
é concebível sem o organismo, consequentemente, os
dois juntos constituem uma unidade, embora em pensamento, nossas
mentes separem essa unidade em dois conceitos distintos para mais
fácil compreensão.
Ficam
evidentes dois pilares da concepção aristotélico-tomista
de Masi Elizalde que são: a noção de composto
substancial, ou seja uma unidade indivisível de corpo e alma
e o fato de que através dos sentidos, ou seja, do sensível,
o homem estará expressando tanto sua enfermidade quanto sua
cura mostrando assim a sua necessidade de compreensão para
o método do mestre argentino. Ainda neste último parágrafo,
Hahnemann deixa claro que é através dos sentidos e
somente através destes que o homem poderá alcançar
os mais altos fins da sua existência. Esta afirmação
nos obriga e ir buscar em toda sua obra qual seria este finalismo
visto que esse texto não identifica o finalismo ali citado.
Masi Elizalde deixa claro que esta resposta é encontrada
no Esculápio da Balança quando nos diz que
Esto no es así, ya que, em "Esculapio en la Balanza",
vemos al Maestro refiriendo estos cambios, con toda claridad, al
dominio de lo trascendente, al hablarnos de "sensaciones que
aseguren la felicidad", "acciones que ensalcen la dignidad"
y "conocimientos que abarquen el universo" como condiciones
para el cumplimiento del elevado fin de la existencia, no especificado
en el Organon, consistente en aproximarse, o reconciliarse, con
"el gran espíritu que adoran los habitantes de todos
los sistemas solares.
Além
desta citação hahnemanniana feita por Masi Elizalde,
várias outras são feitas por Hahnemann ao longo de
sua obra como nos mostra as 25 citações mostradas
por Vitor Menescal quando ele investiga o finalismo hahnemanniano
tornando clara uma teologia que, mesmo polemizada, é evidente.
Não temos como proposta discutir este tema que consideramos
de grande relevância na Homeopatia, entretanto, não
podemos deixar de ressaltar que está inexoravelmente ligado
ao tema proposto neste trabalho na medida em que as sensações
e funções responsáveis pelo movimento do homem
na saúde, enfermidade e cura estão voltadas para um
finalismo que é o encontro do homem com os mais altos fins
da sua existência.
Neste parágrafo, Hahnemann, deixa clara a necessidade das
sensações e funções na avaliação
que o médico homeopata deverá realizar para compreender
tanto a enfermidade quanto a saúde. As sensações
e funções em uma condição harmônica
permitem que o espírito dotado de razão possa agir
livremente dispondo do corpo atendendo aos mais altos fins da nossa
existência. Ou seja, o finalismo hahnemanniano só será
atingido pelo homem na medida em que ele puder fazer pleno uso da
razão o que implica usá-la livremente. Dois pontos
aqui têm que ser levados em conta, ambos em relação
ao uso da razão: O primeiro, é o fato da razão
ser usada para que este fim possa ser atingido e o segundo é
ela ser usada livremente. A associação que Hahnemann
faz aqui torna evidente que a razão, ou seja, a alma racional,
é um fator preponderante para que possamos compreender nossos
pacientes tanto na enfermidade quanto na cura. Ao agir na enfermidade,
o homem não está privado do uso da razão, mas
a está usando sem liberdade.
A concepção aristotélico-tomista traz à
luz questões levantadas por Aristóteles no IV a.c.
A primeira delas é a questão do composto substancial,
apresentada por Hahnemann no parágrafo quinze, a qual o filósofo
grego defende ao nos falar que "que a alma é o sentido
do principio da vida animal", e também ao nos dizer
que "a alma pode ser definida como a primeira atualidade de
um corpo natural que potencialmente possui vida" e ainda "além
disso a capacidade de viver não é do corpo que perde
a alma, mas sim daquele que a possui".
Podemos observar a partir destas evidencias que a noção
de composto substancial presente no Organon, que Masi Elizalde tão
bem identifica, se origina na investigação aristotélica
sobre a alma humana.
Isto nos permite entender a maneira pela qual esta unidade poderá
expressar a enfermidade do homem e como o parágrafo nove
se torna importante na manifestação desta enfermidade
encontrando aqui outro tópico importante da filosofia aristotélica
quando o filósofo grego, em sua obra ética nos fala
que a alma humana é dividida em duas partes: uma parte irracional
e a outra racional. A parte irracional constituída pela potencia
nutritiva e sensitiva, para Aristóteles, possui ainda um
elemento o qual resiste à razão como nos explica dizendo
que
Parece haver também um outro elemento irracional na alma,
mas este em certo sentido participa da razão. De fato, louvamos
a razão tanto do homem dotado quanto do destituído
de continência,bem como a parte racional da alma de ambos,
pois esta os exorta acertadamente e em direção aos
melhores objetivos; acha-se também neles, todavia, outro
elemento natural além da razão, que luta contra esta
e lhe resiste....
Mas mesmo esse elemento parece participar da razão, como
dissemos, de qualquer forma, nas pessoas dotadas de continência
ele obedece à razão, e presumivelmente ele é
ainda mais obediente nas pessoas moderadas e valorosas, pois nestas
ele fala, em todos os casos, em uníssono com a razão.
Este
elemento ao qual Aristóteles se refere, o qual é irracional,
é a paixão que tem um papel fundamental na obra aristotélica
e consideramos o ponto de ligação com o parágrafo
nove de Hahnemann. Para Aristóteles, as paixões podem
submeter a razão à sua orientação, ou
seja, tomar um rumo e ir em uma direção ditada pelas
paixões, pelos desejos, ou seja, a alma racional está
sendo utilizada mas não livremente como preconiza Hahnemann
no caso da saúde. Se para Aristóteles o não
uso da razão leva o homem à ser dominado pelas paixões
agindo de maneira não virtuosa, para Hahnemann isso é
enfermidade.
O uso livre da razão é, sem dúvida, ter a parte
irracional da alma humana em conformidade com a alma racional. O
homem, para Hahnemann só estará em estado de saúde
se cumprir sua finalidade que é usar livremente a razão
e isso significa dizer, usá-la adequada às paixões,
ao seu desejo e só assim, o homem poderá alcançar
os mais altos fins da sua existência que Masi Elizalde nos
mostra que é a aproximação do homem à
Deus, como está exposto na obra hahnemanniana.
Para o homem, estar em saúde é cumprir o seu papel
e poder usar livremente a razão, aproximando-se assim, de
Deus.
Esta compreensão aristotélica do parágrafo
nove encontra ressonância no que Tomás de Aquino nos
fala
Ora, o fim próximo do corpo humano é a alma racional
e suas operações,
Pois a matéria é para a forma e os instrumentos para
as ações do agente. Digo, portanto, que Deus constituiu
o corpo humano na melhor disposição para tal forma
e tais operações. Se acaso parece haver algum defeito
na disposição do corpo humano, deve-se considerar
que ele decorre da necessidade da matéria para que, naquelas
coisas requeridas pelo corpo, haja a devida proporção
entre o corpo e a alma e as suas operações.
Tomás de Aquino nos fala que o fim próximo do homem
é o uso da alma racional e suas operações.
Podemos entender tais operações como aquelas que Hahnemann
nos diz que permitirão levar o homem aos mais altos fins
da sua existência. É papel do homem o uso da razão,
sua função na vida só será exercida
com seu uso, que, se livremente, será no estado de saúde.
Ainda como nos diz Tomás de Aquino, o corpo está para
o espírito como os instrumentos estão para as ações
do homem. Ao falar isso, além de ressaltar a questão
do corpo e alma formarem uma unidade deixa clara que a ação
humana está dependente de instrumentos que se constituem
evidentemente desta unidade. O homem ao desejar, sentir e agir poderá
fazê-lo como vimos, com o uso livre da razão ou privado
da mesma, dominado pelas paixões. A ação humana,
o movimento que o homem faz na vida é sempre em busca daquilo
que ele considera bom para si. Resta-nos poder avaliar se este "bom"
permitirá alcançar os mais altos fins da sua existência
ou, ao contrário, afastá-lo dele.
Os defeitos inerentes ao corpo humano constituem de certa forma
a perfeição humana. É através do que
consideramos imperfeito, que o homem poderá exercer sua função,
ou seja, o uso da razão livremente a alcançar os mais
altos fins de sua existência. A imperfeição
do homem está na possibilidade de ser perfeito usando livremente
a razão e, assim, cumprir sua função. O mestre
argentino nos mostra claramente a maneira como compreende esta questão
quando nos diz que
Os animais têm com o que se defender, com o que se agasalhar,
têm o instinto, enquanto o homem tem somente a razão
com a qual fabrica suas defesas. Então temos uma doença
só: a vulnerabilidade. E o elemento com o qual nos defendemos
da vulnerabilidade é a razão. É muito lógico
o dizer de Kent: a doença começa com o "mal pensar",
isto é, a má defesa, a má adequação
à situação de vulnerabilidade. O mal pensar
determina o mal desejar, que conduz ao mal agir. Existe outra coisa
mais importante, que é o afastamento da Lei que está
impressa nos nossos corações, em nossa essência,
que leva o intelecto a oferecer à vontade um objetivo errado,
e a desviá-la. Outra coisa que disse Kent é que a
doença não é nada menos que o desacordo entre
o intelecto e a vontade - Kent refere-se à essência
da doença. Por que tudo isso se torna um tanto quanto obscuro?
Porque não sabemos nada sobre o homem.
A reflexão
que Masi Elizalde faz tentando responder as perguntas iniciais mostradas
no início deste trabalho permite uma compreensão clara
do conceito de enfermidade e cura hahnemannianos à luz da
concepção aristotélico - tomista.
Ao invejar um determinado aspecto de Deus, o homem rechaça
uma potência humana. Tentando buscar e possuir aquilo que
não lhe é próprio, que é divino, o homem
torna-se imperfeito neste determinado aspecto invejado. Torna-se
necessário o uso livre da razão para que possa exercer
seu papel, agora, com esta sensação de perda. As sensações
decorrentes desta ação repercutem no homem temporal,
aparecem e nossas ações no cotidiano. Isso faz com
a homeopatia exercida na concepção aristotélico-tomista,
proposta por Masi Elizalde, permita, frente a administração
do simillimum, sob estas prerrogativas, que o homem exerça
livremente a razão, alcançando os mais altos fins
da sua existência.