07-O
papel dos sentidos na prática homeopática Aristotélico-Tomista
Conrado
Mariano Tarcitano Filho
Este
trabalho tem por objetivo, a partir do conceito de enfermidade e
cura proposto por Masi Elizalde, mostrar o papel que os sentidos
desempenham na expressão da enfermidade e de que maneira
tornam-se elementos imprescindíveis para a compreensão
do homem tornando possível uma prescrição médica
homeopática. Este papel também será mostrado
no acompanhamento realizado durante a evolução do
tratamento homeopático através do desempenho dos sentidos,
tornando possível uma avaliação de acordo com
a proposta do mestre argentino.
Ao
propor uma metodologia homeopática na qual está implícita
a concepção de homem aristotélico-tomista,
o Professor Masi Elizalde, como ele próprio diz em vários
momentos de suas aulas, está unicamente sendo fiel às
premissas hahnemennianas as quais, para ele, mostram de forma evidente
esta concepção. Aliada a esta compreensão,
o mestre, também mostra um entendimento de enfermidade e
cura que corrobora tal concepção tornando-a definitiva,
buscando nos textos hahnemannianos as evidencias de tal proposta.
Nesses
textos, o fundador da Homeopatia deixa clara a importância
dos sentidos no entendimento do que seja enfermidade e cura como
por exemplo quando nos diz que
"No estado de saúde, a força vital de natureza
espiritual (autocracia), que dinamicamente anima o corpo material
(organismo), reina com poder ilimitado e mantêm todas as suas
partes em admirável atividade harmônica, nas suas sensações
e funções [grifo nosso], de maneira que o espírito
dotado de razão, que reside em nós, pode livremente
dispor-se desse instrumento vivo e são para atender aos mais
altos fins de nossa existência".
Hahnemann
coloca nos altos fins da nossa existência o seu sentido máximo
de cura porém para que tal ocorra é necessário
uma atividade harmônica entre "sensações
e funções" o que mostra os sentidos como parâmetro
de avaliação e entendimento tanto da enfermidade quanto
de cura na medida em que poderão permitir que o homem possa
valer-se do espírito dotado de razão ou não
para alcançar a cura. Os sentidos, para o fundador da homeopatia,
expressam a enfermidade, sendo portanto a maneira pela qual o médico
homeopata teria para compreender o paciente, fazer os diagnósticos
homeopáticos e além disso acompanhar, a partir dos
sentidos, a evolução deste paciente no caminho da
cura ou não visto que, uma vez em harmonia, os sentidos,
assim como as funções permitirão o correto
uso da razão estabelecendo-se assim, o que para a Homeopatia
é a cura.
O método elizaldeano é claro ao falar da gênese
da enfermidade que se dá em decorrência da inveja do
homem em relação a um determinado atributo divino
em detrimento do seu correspondente humano. Surge assim, a Psora
Primária que pode ser definida como uma ilusão da
perda deste correspondente humano localizada na imaginação,
fazendo com que esta se torne, por isso, de grande relevância
na medida em que a expressão da enfermidade através
do composto substancial se dará a partir dela, ou seja, desta
ilusão emanaram sensações que expressas através
da unidade formada por este composto substancial permitirão
que possa ser observada, compreendida em sua totalidade individualizada
e então poder-se-á fazer uma prescrição
de acordo com a lei dos semelhantes. Na imaginação
se formam imagens as quais serão expressão desta ilusão
de perda primária. A imaginação é servida
pelos sentidos externos e pelo sentido comum. Os sentidos externos
como sabemos, audição, olfato, paladar, tato e visão,
recebem as informações que lhe correspondem do objeto
sensível. O sentido interno as fragmenta, as reúne
formando imagens que serão alocadas na imaginação.
A consciência sensível dada pelos objetos é
dada à imaginação que a guardará e segundo
nos explica Masi Elizalde, "é guardado com uma valoração"
ou seja, "isto é bom, isto é mau". Esta
explicação do mestre encontra respaldo no que Aristóteles
nos explica sobre este tema quando nos diz que é desde o
sensível que se formam as imagens, as quais são responsáveis
pela formação do pensamento, por tornarem-se agora
inteligíveis acrescentando que o sentir é sempre verdadeiro
e o pensar pode ser falso. Enquanto Hahnemann evidencia que as
sensações estão presentes no homem tanto na
enfermidade quanto na cura, Aristóteles confere a eles um
cunho de veracidade ressaltando que o pensar - que afinal leva a
uma ação - pode ser falso. Para o homem aquilo que
sente, ou seja, suas sensações são verdadeiras,
pois é a sua forma pessoal, peculiar e característica
de sentir e à partir daí desejar e agir o que poderá
ser equivocado.
Masi
Elizalde mostra que estas imagens possibilitam ao homem uma avaliação
do que é bom ou mau e que um pensar e/ou uma ação
equivocada expressam a enfermidade do homem e um dos fundamentos
desta explicação da concepção aristotélico-tomista,
encontramos no comentário que Tomás de Aquino faz
a respeito do filósofo grego quando nos diz que: "as
opiniões tem um efeito imediato sobre nossa natureza afetiva
[grifo nosso], tão logo opinamos que algo nos é desagradável
ou amedrontador, ficamos tristes ou temerosos e o contrário
também, se algo é encorajador ou promissor, ficamos
esperançosos ou felizes. Nossa natureza afetiva, não
é impressionada pela imaginação, mas pelo que
nos parece bom ou mau, útil ou não, e isto no homem
vai formar um julgamento sobre o que é bom ou mau, temível,
desejado e encorajador".
A imaginação
assume um papel de tal relevância por armazenar tais imagens
que vão gerar emoções as quais permitirão
o homem identificar os objetos sensíveis como bons ou nocivos,
úteis ou não, temíveis ou não. Se Aristóteles
fornece todo um processo de aquisição do conhecimento
a partir da alma humana mostrando a função de cada
uma de suas partes, São Tomás coloca a natureza afetiva
humana na avaliação destes objetos. Entretanto os
filósofos não vão adiante em suas descrições.
Não há uma explicação sobre o que faz
com que algo seja bom para uma pessoa e não seja boa para
outra. O que algo pode ser temido por um e não por outro.
Ou ainda, o que algo pode agradar a alguém de uma maneira
e a outra pessoa de outra. Entretanto ao identificar algo como bom
ou não, temível ou não, útil ou não,
existe, sim, algo a priori que permite que este juízo de
valores seja realizado, ou seja, existe algo que permitirá
ao homem uma identificação com o objeto sensível
que será então avaliado de acordo com a emoção
gerada no homem. Podemos compreender que há algo de peculiar
nesta avaliação, ou seja algo que permite ao homem
considerar um determinado objeto como bom ou mal, como temível
ou não, ou seja, em uma outra instância, algo desejável
ou não. Surge aqui um outro item: o desejo o qual será
mostrado e debatido adiante. Essa questão da peculiaridade
nos leva à um liame com o que Hahnemann chama de idiossincrasia
a qual pode ser compreendida como algo que possibilita que algo
adoeça uma pessoa e não aconteça o mesmo com
outras. A questão da idiossincrasia surge então como,
mais do que uma explicação para este estado a priori
que faz com que algo possa ser considerado bom ou nocivo por distintas
pessoas, mas uma justificativa para a questão primordial
da proposta elizaldeana: a individualidade. A Psora Primária
torna-se assim algo que vai além de uma explicação
da origem da enfermidade humana mas nos traz aquilo que diferencia
a proposta de Masi Elizalde: a Psora Primária.
Neste
processo, surge o desejo que colocará o homem em movimento
para buscar este objeto bom e desejável ou se afastar dele
no caso de ser considerado nocivo. As emoções decorrentes
do concupiscível e do irascível são as responsáveis
por este movimento de desejo do homem. Este desejo necessita da
imaginação, das imagens ali arquivadas para que o
homem se coloque em marcha na vida, ou indo buscar aquilo que é
bom ou fugindo do que lhe é nocivo. Não podemos perder
a dimensão de que estamos falando do que é bom ou
mal a nível estritamente individual, particular, peculiar.
A Psora Primária, esta mancha que está localizada
na imaginação permite toda a compreensão do
que acontece e Masi Elizalde nos explica como esse processo ocorre
dizendo-nos que Tudo o que eu adquiro do mundo exterior tem que
passar por esse filtro: o filtro da imaginação: E
aí temos a psora, ou seja, aí está a mancha.
Se o elemento do mundo exterior não tem nada a ver do ponto
de vista simbólico com a minha mancha particular, passa a
ser considerado de forma objetiva pelo meu intelecto, desperta os
movimentos de minha vontade e fica guardado na minha memória
racional. Ms se o elemento exterior, do ponto de vista simbólico
tem que passar não por aqui, que está livre, mas pela
zona de minha imaginação, que contém a mancha
da minha psora primária, eu ofereço ao intelecto uma
imagem deformada da realidade. Então, não é
a parte racional que está doente, mas ela recebendo dados
equivocados.
Aquilo
que é peculiar, característico, estranho, ou seja,
aquilo que por definição hahnemanniana é homeopático,
toma uma dimensão absoluta na compreensão elizaldeana
tornando os sintomas homeopáticos de um indivíduo
uma expressão daquilo que verdadeiramente o individualiza:
A Psora Primária. O desejo tal qual aparece no concupiscível
vai depender diretamente do que está contido na imaginação.
A busca que o homem faz pelo que lhe é bom, útil,
agradável, vai se dar de acordo com as emoções
proporcionadas pelas imagens contidas na imaginação.
Resumindo, não há desejo sem imaginação.
Esta conclusão do método elizaldeano está de
acordo com o que nos diz Aristóteles sobre seu estudo sobre
a alma humana quando nos diz que "os seres vivos são
capazes de apetite, e também de movimento próprio,
mas não são capazes de desejar sem fantasia e toda
imaginação envolve tanto deliberação
quanto sensação".
Se
a imagem formada estiver de acordo com a realidade a parte racional
da alma humana permitirá uma ação correta entretanto,
como está recebendo imagens as quais mostram uma desconformidade
cuja medida é a emoção gerada no indivíduo,
a alma racional estará atuando de maneira incorreta, porém
não é ela que está alterada mas a imaginação
que gera, com as imagens ali guardadas, sentimentos e sensações
que estão em desacordo com a realidade. O homem faz um julgamento
correto quando as informações fornecidas pela imaginação
são corretas e um julgamento errado quando as informações
são incorretas. A perda do equivalente humano do atributo
invejado é imaginário. Esta sensação
de perda é a responsável pelas informações
equivocadas de tudo que tiver como referência a psora primária.
Masi apresenta um argumento definitivo ao nos dizer que por ser
imaginária, a psora primária é curável
caso contrário não seria. Portanto, esta perda não
é real, e nem se insere entre as perdas consideradas reais. Compreende-se assim a individualidade do ser a partir da compreensão
do conceito de enfermidade elizaldeano, isto é, a partir
do conceito de Psora Primária. É desta forma que poderemos
prescrever e evoluir nossos pacientes segundo o método proposto
por Masi Elizalde.
É
a partir desta ilusão de perda de uma potência humana
que o homem estabelecerá com a vida uma relação
a qual será feita a partir dos sentidos. A psora primária
estará presente em tudo que for expressão do paciente,
em todos os seus sintomas. Masi Elizalde preconiza o dinamismo dos
sintomas na busca da compreensão dos nossos pacientes e conseqüentes
prescrições. A presença estática de
um ou alguns sintomas não permite que uma prescrição
baseada na Psora Primária seja efetuada, sem queremos, com
isto, tirar a importância desta técnica de prescrição
que em alguns casos é necessária. Temos que buscar
compreender no nosso paciente o que resume esta problemática
existencial que estará presente nas questões religiosas,
culturais e sociais que serão de máxima importância
para a compreensão do homem e sua individualidade o que permite
um flanco de possibilidades de compreensão do homem que nos
leva a fazer uma ligação com várias áreas
das ciências humanas. Podemos concluir que compreender o homem,
nesta concepção, tanto na enfermidade, quanto no processo
curativo, é ter nos sentidos através das sensações
presentes no indivíduo, a fonte deste entendimento e a possibilidade
de prescrever e acompanhá-lo nestas duas possibilidades de
caminhos a serem trilhados pelo homem.
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