Transcrição da palestra do Dr. Masi Elzalde realizada
em Dezembro de 2000, feita pelo Dr. Erasto Luiz de Souza.
Em
primeiro lugar, este núcleo não esta confirmado, penso
que só poderá ser agregado aos núcleos da Psora
Primária depois que tivermos revisado muitos remédios
que antes nos passaram desapercebidos a possibilidade de que houvera
tido sintomatologia desse possível núcleo da reconciliação.
Prefiro por este momento, até encontrar-lhe um nome plenamente
satisfatório, que o chamemos de 6o núcleo mas com
um sinal de interrogação, porque, volto a repetir,
não é como os outros núcleos que se encontram
com muita freqüência nas patogenesias, sobre tudo Culpa
e Castigo, com menos freqüência o da Justificativa e
o da Nostalgia. Então, por isso, tenho muita precaução
antes de integra-lo ao quadro da Psora.
Quando
apareceu e em que remédio se vê com toda clareza? Menyanthes
esta edificado sobre um grande tema, sobretudo numérico quanto
a sintomas, que era o núcleo da opressão: tudo é
pressão, todo o sofrimento é pressão. Estudando
o que é "pressão", tratando de entender
a linguagem orgânica pela analogia, surgia claramente que
o significado, de sofrer pela pressão, é sofrer de
sensação profunda de perda da liberdade; esta travado
em sua liberdade, oprimido.
Já
lhes disse que os grandes temas podem ser numéricos ou feitos
pela originalidade da sintomatologia que o compõe e neste
medicamento temos essa enorme quantidade de sintomas que falam do
sofrimento pela pressão, que traduzidos a um plano mais profundo,
querem dizer perda da liberdade. Havia um grande tema que chamava
a atenção, pelo paradoxal com o resto da sintomatologia,
esse medicamento que sofria tanto pela pressão, surpreendentemente,
melhorava pela pressão. Todas essas dores opressivas, quando
Menyanthes põe a mão, melhora e quando retira a mão
voltam a aparecer. Por isso coloquei a melhora pela pressão
como outro grande tema, pelo paradoxal, pelo estranho que resultava
diante de todo o resto da sintomatologia. Agora tinha que entender
o que se passava com estes grandes temas, o por que isso acontecia?
Que significado poderíamos encontrar a nível mais
profundo que nos daria a compreensão da essência do
medicamento? Aqui, nem precisamos recorrer à analogia, simplesmente
no dicionário da língua, vimos que no significado
de "mão" esta a possibilidade de oprimir, de ser
manifestação de opressão, porém existe
também a sua parte boa, quer dizer, que tem outro significado,
que é o de dar ajuda, de certo modo, de liberar, de desoprimir,
mas com a ajuda do outro. Buscando na psicologia, em Collin, sobretudo,
surgia um significado profundo de alto nível hierárquico,
porque discute um dos problemas mais difíceis de se resolver
pelos filósofos, o problema é: a ajuda de Deus é
um entrave ao livre arbítrio do homem? Onde está o
livre arbítrio, se quem soluciona a coisa é Deus?
É como Ele quer? É uma ingerência de Deus? Menyanthes
pensa assim: isto eu não aceito, estão tirando o meu
livre arbítrio, a minha liberdade, a mão tem um mal
significado, é uma opressão. Menyanthes não
percebe, que aceitar a pressão da mão, o alivia, isto
o faria refletir e inclusive permitir-lhe, com a aquisição
de conhecimentos que abarcam o universo, como dizia Hahnemann, encontrar
uma solução por fora da possibilidade medicamentosa,
(obs. Masi nesse momento transpôs, ou melhor, deu um salto
digno dos verdadeiros gênios, ele faz uma relação
entre o entendimento de um medicamento com uma possibilidade de
tratamento "curativo" sem medicamento). Pelo menos em
Menyanthes, este 6o núcleo que surge com tanta raridade,
pode indicar ao paciente e ao médico qual é o caminho
para curar-se só, sem remédio, coisa que tão
bem nos faria até que tivéssemos experimentado todas
as substancias da natureza.
Pode-se
fazer com que um paciente Menyanthes compreenda o verdadeiro significado
do tema ajuda. Que compreenda que a ajuda e sobre tudo a ajuda de
Deus não trava o seu livre-arbítrio, se não,
que simplesmente "afasta" os obstáculos para que
se opte pelo bom caminho, entretanto, pode rechaçar essa
opção se quiser.
Creio
que vocês se recordam, faz tempo que venho pensando, e de
acordo com Hahnemann, pois foi Hahnemann que nos disse da possibilidade
de uma terapia estruturada em base a nosso critério de enfermidade,
ao nosso conhecimento do homem, quer dizer, trabalhando com um homem
entendido a maneira aristotélico - tomista, com um composto
substancial, com um destino último, a beatitude.
Junto
com isso encontrei em minha biblioteca uma carta de Hahnemann para
Staf ou a um enfermo, não tenho certeza, que dizia, confirmando
uma vez mais ou dando outra prova do tomismo hahnemaniano, que mesmo
depois da morte, na outra vida, o criador em sua infinita bondade
continuaria nos ajudando, para que seguíssemos remontando
nosso fim último que é tratar de nos assemelharmos
cada vez mais, ou de aperfeiçoarmos nossa condição
de imagem de Deus, quer dizer, fazer-nos a cada dia mais e mais
à imagem de Deus. Evidentemente este 6o núcleo fala
disto, porque nos leva a possibilidade de saber por onde conduzir
a Psora Primária dos pacientes.
Volto
a repetir, temos que encontrá-lo nos demais medicamentos
se não podemos pensar que tudo é muito fácil.
Estão exagerando um pouco com este assunto do núcleo
da reconciliação, em todas as hipóteses que
me apresentaram em Paris já se falavam do 6o núcleo
por tal sintoma, um momento, não é questão
de inventar porque gostamos do 6o núcleo, é questão
de encontrá-lo e comprovarmos que é o 6o núcleo.
Que
imagem, muito comum, muito geral, se assemelha a Menyanthes? Pode
ser simplesmente uma imagem de similar e não de simillimum,
se não haveria uma excessiva quantidade de pacientes Menyanthes,
é o quadro típico da rebeldia da adolescência,
faço porque eu quero, não tenho porque aceitar o que
meu pai quer que eu faça, já sou grande, me cuido
sozinho. Claro, alguns serão legítimos Menyanthes
e outros não. Mas creio que é um bom similar para
estas situações.
Como
todos os sintomas tem diversas apreciações, por um
lado melhora e por outro remarca sua rebeldia. Como a mão
é dele mesmo, eu me aperto e melhoro, que outro significado
isto pode ter? Se for a minha mão, sou eu que me curo, reforça
a temática de independência absoluta no sentido de
receber ajuda, se aprofundamos mais o fato e aceitamos a palavra
ajuda na significação do sintoma, quer dizer, para
melhorar minha sensação de perda da liberdade eu tenho
que aceitar que me ajudem, a ajuda em geral.
Uma
vez que surgiu esta possibilidade do 6o núcleo, esta hipótese,
comecei a encontrar justificações em tudo que lia
da literatura tomista, a mais satisfatória de todas, a mais
evidente é a que diz Pascal, que não era tolo, que
falava de uma coisa que aparentemente resultava chocante, do bom
uso ou da boa utilização da enfermidade, quer dizer
que a enfermidade pode ser bem utilizada, que não estamos
subordinados somente a sua má condição, que
em si mesma, a enfermidade nos brinda elementos positivos que temos
que aproveitar. Depois, em Sto. Tomás, encontrei que a enfermidade
é a forma que utiliza Deus para castigar nossos pecados,
obviamente não é Deus que gera a enfermidade, se não,
através do desencadeamento do processo de enfermidade por
nossos desvios do caminho reto como se cansa de dizer Hahnemann
em todos os seus escritos; para castigar, porém, também
em alguns casos, para nos salvar. Se a enfermidade tem a possibilidade
de salvar-nos, fica tudo muito coerente com o que sempre sustentamos,
isto é, que as entidades clínicas tem um sentido positivo
até a cura, mas sem força para concluí-la.
Os esforços miseráveis e incompletos etc...
Se
vocês quiserem entrar no terreno religioso, depois de toda
a revisão crítica não temos outra possibilidade,
a não ser, aceitar entrar no religioso, é justamente
o que Hahnemann questiona. Se formos criteriosos temos que aceitar
e dimensão religiosa do homem e os problemas que existe nessa
dimensão se não, nunca entenderemos o homem por completo.
Quer dizer, uma vez mais voltamos a Pascal, a boa utilização
da enfermidade, como lhes dizia, aceitando isso, não pude
deixar de recordar um episódio da Gênese, qual é
o último gesto de relação direta entre Adão
e Deus quando Adão foi expulso, Deus lhe da umas peles, no
meio do castigo um elemento de ajuda, um paliativo do castigo, se
isso ocorria ao nível da Gênese, ao nível do
máximo castigo, por que iríamos pensar que na enfermidade
que é outra forma de castigo, Deus não iria dar também
umas peles, uma ajuda, uma coisa positiva, ainda dentro do mal,
do doloroso, não aceitar isso é um pouco desconhecer
a Deus em seu infinito amor. Coloquemos com clareza, Deus não
castiga, é o homem que com suas ações equivocadas
gera o que depois será o castigo, como diz Sto. Tomás,
aquilo que ao final se converte em sofrimento e castigo de cada
homem é aquele aspecto da lei que não quis obedecer,
que é o mesmo que diz Allen, por detrás da sintomatologia
de cada enfermidade se encontra a sintomatologia da lei violada,
então parece que, se confirmado esse núcleo, uma coisa
que completa harmoniosamente tudo que estamos dizendo, quer dizer,
graças à existência do que é Deus, sempre
no meio do que é o pior temos o alívio, se sabemos
aceitar e seguir o caminho que nos indica. Pensem em Menyanthes,
ele se aborrece da vida, a si mesmo, ao não aceitar os conselhos
dos que sabem mais que ele, porque da rebeldia de Menyanthes não
sai nada de bom, porque o conselho o faria manter-se dentro da lei
e ele por sua rebeldia se afasta da lei, quando se afasta, vem a
conseqüência que denominamos castigo, que é uma
coisa fisiológica. Não se esqueçam de como
Deus governa o mundo, por meio de dois grandes elementos: da lei
para que saibamos por onde seguir e a graça para ajudar-nos
a seguir o caminho nos aspectos que nos pareça difícil,
isso fica claro quando compreendemos Arsenicum album que tem todo
o desejo de ordem, de governar com responsabilidade, se o outro
não cumpre com o que deve ser ele sente que deveria tê-lo
ensinado bem, por isso que, no sintoma que ele vê o outro
enforcado e quando não pode cortar a corda sente como se
fosse ele que tivesse se enforcando, que esta sendo castigado.Existe
também, toda a sintomatologia de desgraça em Arsenicum
album, desgraçado, condenado, sem ajuda, quer dizer que sofre
do problema relacionado com aspecto lei, mas também com do
problema relacionado com o rechaço a graça.
Já
no caso de Menyanthes fica evidente que todos os males vem por essa
atitude de rebeldia de não aceitar o conselho dos maiores,
dos que sabem mais que ele, dos que lhe estão indicando o
caminho. O castigo não vem de fora, o castigo, o desenvolvemos
nós mesmos ao colocarmos em marcha um mecanismo matemático.
O perigo
que vejo nos estudos das patogenesias, ao buscarmos a sintomatologia
do 6o núcleo, é aceitarmos todas as modalidades de
melhoria como deste núcleo. Pode ser que sim, o que acontece
é que temos que ver, como fizemos no caso da mão em
Menyanthes, por que tal melhoria forma parte do 6o núcleo,
o que quer dizer esta melhora num plano mais profundo, num plano
superior ao físico.
Desde
um ponto de vista prático, não somente completa as
possibilidades de compreensão da essência, do gênio
do medicamento, como também abre a possibilidade de atuar
quando não encontramos o medicamento que cobre a imagem do
paciente, quer dizer, tentar estruturar, com esses conhecimentos
que chegamos depois de tanto tempo de trabalho, de análise
e de crítica, uma psicologia ou psicoterapia homeopática.
Volto a insistir, não é questão de desperdiçar
o que outros fizeram antes. Cuidado, porque já sabemos todos
os erros que ocorrem nas psicoterapias, que também estarão
presentes nesta, a não ser por um fato, porque esta psicoterapia
estaria baseada em algo que as demais psicoterapias, salvo, que
eu saiba a logoterapia de Viktor Frank, esta baseada em por em vigência,
frente ao paciente, a existência em seu nível de vida,
o elemento espiritual e instruí-lo sobre qual é a
finalidade deste nível espiritual, isto é, a busca
do absoluto, do transcendente, então, daí, é
um passo por no tapete a existência de Deus, com as suas características.
Creio que, por trabalhar, por assim dizer, com a mão de Deus,
essa psicoterapia pode evitar muitos problemas que existem nas outras
psicoterapias, desde já, não vou me meter nisso, não
tenho tempo, porém lhes deixo a semente para quem se interessar.
Volto a repetir, temos que levar em conta os mecanismos do subconsciente,
eu não rechaço o fisiológico, nem o fisiopatológico
da psicanálise, mesmo da ortodoxa, não vou negar a
repressão, por exemplo. Viktor Frank, aceita o nível
espiritual, tanto é assim que Frank tem um livro que é
uma maravilha que se intitula, pelo menos na tradução
brasileira "A Presença Ignorada de Deus", numa
frase muito parecida ao que eu havia escrito nas Actas, ele dizia,
"os que dizem que com o psicossomatismo, as terapias reencontram
sua condição unitária de homem, mentem, porque
todas essas doutrinas são psicossomáticas e para recuperar
a verdadeira unidade do homem, deveria se dizer espírito-psicossomático,
porque, se não se coloca o espírito, se retira o motor
de todo o processo, o psíquico é, nada mais, do que
a maneira de expressar o espiritual".
Temos
a transgressão, a falta; a culpa; o castigo, (ainda vou retirar
esse nome castigo, o lógico seria a conseqüência);
a nostalgia, pq tenho a reminiscência da perfeição
que tinha e que perdi, o temor a que me castiguem porque sou culpado;
o aliviar um pouco a culpa com o núcleo da justificativa
e o núcleo que esta me dizendo: este é o teu caminho
para voltar a trajetória correta, o núcleo da reconciliação.