04-
Parâmetros para evolução e acompanhamento dos
casos clínicos
Elizabeth P. Valente de Souza
Erasto Luiz de Souza
As
dificuldades e as soluções encontradas nos respectivos
casos apresentados nos possibilitam discorrer algumas palavras sobre
o tema.
A definição de tais parâmetros se tornou imprescindível
para o acompanhamento de qualquer caso clínico, sem os quais
torna-se uma experiência arriscada tal empreendimento.
Os
parâmetros para a evolução são os seguintes:
1) Clínico ou Orgânico
2) Sensação Subjetiva de Bem-Estar
3) Sintomas Guias e Auxiliares
4) Miasmático
1o.
Parâmetro - Clínico ou Orgânico
Gostaríamos de realçar que essas observações
foram concluídas após uma análise da obra hahnemanniana,
principalmente Organon e as Enfermidades Crônicas sobre as
elucidações feitas pelo Dr. Alfonso Masi Elizalde.
Sob o parâmetro clínico ou orgânico, pouco temos
a acrescentar além das considerações feitas
por Hahnemann sobre via medicatrix natural que seriam os esforços
espontâneos da força vital na tentativa de levar o
organismo à cura, os quais nunca seriam bem sucedidos nas
enfermidades muito agudas nem nas enfermidades crônicas.
Hahnemann
avalia os seus resultados afirmando que, mesmo nos casos de tratamentos
homeopáticos aparentemente bem sucedidos, o poder curativo
existente nos medicamentos era suficiente para avaliar o enfermo
somente por um período limitado, que logo as enfermidades
resurgiam de maneira mais obstinada e não raro mais profundo,
sem no entanto responder ao medicamento que até então
vinha sendo administrado.
Tais
considerações nos levam a concluir que existe um sentido
para a enfermidade que evolui obstinadamente de forma espontânea
ou mesmo com tratamento homeopático aparentemente bem sucedido
que leva o organismo a um aprofundamento de sua enfermidade orgânica.
A cura, portanto, seria a inversão desse sentido. Esse mal
interno que permite a evolução e o aprofundamento
da enfermidade, Hahnemann considerou de natureza miasmática
e propôs um tratamento dirigido para este objetivo. Somente
assim a cura poderia ser alcançada.
As
leis de cura percebidas por Hering na obra hahnemanniana nada mais
são do que observação desse sentido curativo
desencadeado por um medicamento capaz de atingir esse objetivo terapêutico
que promove um novo caminho de evolução clínica
para o organismo. Portanto, o retorno de sintomas na ordem inversa
do seu aparecimento, a manifestação da enfermidade
mais superficiais do que existiam até o momento são
indícios, sob o ponto de vista orgânico, de que o sentido
curativo está se evidenciando.
Estariam
incluídas nessas observações as agravações
homeopáticas, as exonerações e os retornos
de sintomas. Consideramos a utilização desse parâmetro
importantíssimo, pois nos casos aonde observamos o aprofundamento
da enfermidade orgânica, esse parâmetro é definitivo.
Existe uma má evolução. O medicamento não
foi capaz de alterar o sentido da enfermidade miasmática,
mesmo que tenha aliviado o enfermo de alguns sintomas. Estaríamos
na etapa hahnemanniana dos medicamentos, na aparência os mais
bem escolhidos e que, ao final, permitiriam o aparecimento de metástase
mórbida, isto é, manifestações clínicas
em orgãos mais vitais mais importantes.
Concluímos,
portanto, que o parâmetro clínico é definitivo
nos casos de aparecimento de manifestações orgânicas
mais graves que as anteriores no decurso do tratamento. No caso
inverso, isto é, quando existe a nível orgânico
um caminho aparentemente curativo, demonstrado por superficialização
das manifestações orgânicas posterior ao desaparecimento
daquelas mais graves e profundas, este parâmetro não
é absoluto, sendo ele apenas um dos indicativos de um possível
caminho curativo.
2o.
Parâmetro - Sensação Sujetiva do Bem-Estar.
Há muito que os homeopatas são conscientes de que
a sensação subjetiva de bem-estar produzida por um
medicamento pode ser de difícil avaliação,
pois existem muitos fatores de interferência muito bem demonstrados
pelo Dr. Stilfman como - fatores ruidos - que podem mascarar nossa
avaliação. Embora esta sensação seja
de grande auxílio, pois sempre deverá estar presente
quando o processo de cura for desencadeado.
3o.
Parâmetro - Sintomas Guias e Auxiliares
Sintomas guias são os sintomas homeopáticos eleitos
para a escolha do medicamento. Sintomas auxiliares são aqueles
sintomas que fazem parte do quadro, que não foram escolhidos
para a eleição do medicamento e que servem para acompanhamento
do caso.
Muitas
vezes torna-se o parâmetro mais comumente observado pelos
homeopatas que, ao perceberem a melhora ou o desaparecimento de
alguns desses sintomas, juntamente com uma melhora clínica,
consideram que o caso está bem encaminhado.
O desaparecimento
dos sintomas guiar por si só não garantem o processo
curativo pois eles podem desaparecer e serem substituídos
por outros que indiquem apenas um movimento miasmático distinto,
mas que fazem parte da possibilidade de expressão da enfermidade
em seu movimento miasmático global, isto é, a dinâmica
miasmática do paciente. Por isso, o desaparecimento dos sintomas
guias no processo curativo deve ser sempre acompanhado do movimento
miasmático necessário ao paciente para que seu desaparecimento
torne-se realmente indicativo de curabilidade da enfermidade crônica.
4o.
Parâmetro - Miasmático
O ponto básico, fundamental e determinante para compreensão
do parâmetro miasmático é a conclusão
hahnemanniana de que existe uma única enfermidade, que é
de natureza crônica e miasmática e que ele denominou
Psora. (Seria importante ressaltar que tomamos como base esclarecimentos
feitos pelo Dr. Alfonso Masi Elizalde sobre o conceito de enfermidade
miasmática hahnemaniana).
O tratamento
da Psora torna-se o principal objetivo do médico homeopata
que almeja desencadear o processo curativo, o que somente será
feito com a administração do medicamento simillimum.
Sabemos que esse objetivo é audacioso, como audaciosa é
a proposta de uma cura suave e permanente feita por Hahnemann, por
isso achamos por bem mostrar que esta possibilidade teórica
é acessível àqueles que compreendem a homeopatia
na sua potencialidade curativa para qualquer tipo de patologia clínica
pois quando se desencadeia o processo de cura sob o ponto de vista
miasmático não existe condição de incurabilidade.
Seria
importante esclarecermos que o conceito de enfermidade única
nos permite compreender a Psora como o sofrimento básico,
isto é, sensações e sentimentos essenciais
não justificáveis com as situações externas
vividas pela natureza humana de uma forma dinâmica. Essas
sensações são acompanhadas de angústia,
inquietude, ansiedade e vulnerabilidade.
Pela
intensidade desse sofrimento e não justificativa, este será
projetado no meio onde buscará uma causa, uma razão,
um porquê.
Essa nova etapa de sofrimento agora justificado seria a Psora secundária.
E aquele sofrimento essencial não justificado seria o que
chamamos de Psora primária, como por exemplo, teríamos
medo como sendo a expressão essencial básica não
justificável, e medo de errar no trabalho como sendo a expressão
justificada no medo.
Masi
Elizalde propõe uma nova reformulação na terminologia
dos miasmas. Sendo a Psora a única e a verdadeira enfermidade,
propõe trocarmos o nome de sicose e sífilis por Psora
terciária, dando assim a idéia de enfermidade única
e não de enfermidades distintas, sendo sífilis chamada
de alterlise ou egolise, demonstrando o movimento destrutivo em
relação aos outros ou em relação a si
próprio. E sicose chamada de egotrofia, demonstrando a imposição
ao meio.
O processo
de cura desencadeado pelo simillimum seria a modificação
da Psora do estado de vigência para o estado de latência,
portanto não há desaparecimento da Psora, apenas latência
de seus sintomas que, sob a influência medicamentosa, mudariam
de sentido.
Concluímos,
portanto, que a análise e a compreensão dos sintomas
psóricos do paciente, assim como a sua atenuação
e o aparecimento de um novo estado de ser, dentro da mesma individualidade,
é a condição básica para o sucesso do
tratamento miasmático.
Após analisarmos todos os parâmetros de acompanhamento
e evolução de um caso clínico, bem como após
ouvir os dois casos clínicos apresentados anteriormente,
podemos tirar algumas conclusões importantes.
1)
Constatamos o desaparecimento de entidades clínicas importantes
como no primeiro caso. Lupus Eritematoso Sistêmico e no segundo
caso, Síndrome de Stein-Leventhal, através de um critério
de prescrição sustentado principalmente no conceito
de dinâmica miasmática, expressando a enfermidade homeopática
crônica do homem.
2)
Durante as evoluções dos pacientes, sempre que é
requerida nova prescrição, isto é, ao paciente
demonstrar novamente sintomas de desequilíbrio vital, esses
são sempre confirmação da forma peculiar de
manifestação do medicamento. Reiterando-o, levando-nos
assim a confirmar o conceito de enfermidade única, isto é,
a forma de adoecer é sempre a mesma.
3)
Da mesma forma que percebemos a existência de uma única
enfermidade, tentamos demonstrar a existência de uma unidade
terapêutica, isto é, sempre será requerido o
mesmo medicamento para o paciente, confirmando assim o conceito
de medicamento simillimum.
4)
Concluimos finalmente que a dinâmica miasmática não
é o único parâmetro, mas é aquele que
não pode faltar no acompanhamento do caso onde é proposto
tratar da enfermidade crônica, e que existe um método
próprio para a avaliação da mesma, isto é,
após a tomada do medicamento, o paciente deve sair do estado
reativo e manifestar os sintomas psóricos e estes devem confirmar
o medicamento dado. Os novos sintomas que aparecem constituem o
miasma psórico que deve entrar no estado de latência,
permitindo àquela individualidade manifestar-se sem os bloqueios
causados pela sensação de temor, angústia e
vulnerabilidade e por isso não sendo mais necessárias
as defesas equivocadas que encontramos na Psora terciária.
5)
A proposta hahnemanniana de cura permanente permite a Homeopatia
uma possibilidade que transcende a condição de uma
terapêutica a mais na medicina. É bom frisar que todo
conhecimento clínico, que as pesquisas sobre diagnósticos
ou sobre a fisiologia das entidades clínicas, de maneira
alguma são desconsideradas. Mas a descoberta da enfermidade
única com a proposta de unidade terapêutica aponta
para uma nova concepção na medicina que propõe
um modelo científico diferente do predominante e até
uma concepção antropológica própria.
Um reestudo da natureza humana é condição fundamental
para o entendimento dessa nova concepção.
Resumo
Objetivos:
Demonstração da importância de cada parâmetro
de acompanhamento dos casos clínicos, ressaltando que a correta
evolução miasmática é fator definitivo
para a afirmativa de que estamos constatando a evolução
de um caso com o medicamento simillimum.
Metodologia:
1)Análise de todos os parâmetros para avaliação
da evolução de um caso clínico.
2)Aplicação
desses parâmetros na avaliação da evolução
dos casos clínicos.
3)Observação das limitações e alcance
de cada parâmetro.
Resultados:
1)O
parâmetro clínico só é definitivo quando
existe o aparecimento de enfermidades mais graves daquelas que existiam
anteriormente.
2)O
aparecimento da sensação subjetiva de bem-estar existe
sempre na presença do processo realmente curativo.
3)A
melhora parcial do enfermo pode aparentar a presença de uma
falsa sensação subjetiva de bem-estar.
4)O
desaparecimento dos sintomas guias não significa por si só
que o caso esteja num caminho curativo.
5)Os
sintomas guias devem refletir indubitavelmente os sintomas verdadeiramente
homeopáticos do caso para ser um parâmetro fidedigno
de acompanhamento.
6)Na
dinâmica miasmática está expressa a relação
entre todos os sintomas homeopáticos do caso.
7)No
decurso do processo curativo, desencadeado pelo medicamento simillimum,
observamos a manifestação de sintomas que reiteram
sempre o medicamento prescrito.
Conclusão:
A presença de todos os parâmetros de cura é
constante na vigência do medicamento simillimum. Quando todos
os parâmetros de avaliação de acompanhamento
dos casos clínicos estão presentes, exceto o parâmetro
miasmático, não há possibilidade de certeza
do caminho curativo.
Bibliografia
HAHNEMANN - Escritos Menores
Espírito
da Doutrina
Esculápio na balança
A Medicina da Experiência
HAHNEMANN
- Organon de 1a. Medicina
HAHNEMANN
- Doutrina e Tratamento Homeopático das Doenças Crônicas
KENT
- Filosofia Homeopática
GATHAK
- Enfermidades Crônicas
FASCHERO
- Homeopatia
MASI
ELIZALDE - Actas do Instituto de Altos Estudios Homeopáticos
James Tyler Kent I, II, III, IV, V, VI, VII.
HERBERT
ROBERTS - Los Principios y la Arte de Curar por la Homeopatia
ALLEN
HENRY - Los Miasmas Cronicos Psora y Pseudopsora
FISH,Nick
- Actas do Instituto de Altos Estudios Homeopaticos
Jahr,
G.H.G. - A Prática da Homeopatia - Princípios e Regras.
Veja
alguns destes títulos na seção de publicações.