03-
Palestra do Prof. Masi Elizalde, realizada em março de 2000,
pelo IHJTK, por ocasião do evento "Homeopatia sem Fronteiras",
no Rio de Janeiro.
Prof. Masi Elizalde - Transcrição: Dra. Denise Lima
Em todos esses anos estamos trabalhando para aqueles que gostariam
de ser investigadores em Homeopatia e este é um grupo pequeno
de pessoas. Uma grande quantidade de pessoas quer o peixe mas não
que lhes ensinemos a pescar. Talvez tenha sido um erro estratégico.
Existem pessoas que querem os resultados, apenas o resumo para que
seja utilizado na prática. Entretanto, não podemos
negar o que encontramos com nossas investigações.
Outro
dia, chegou da França um caso clínico que me pareceu
importante mencionar, porque vai diretamente à prática,
isto é, vai mudar a nossa maneira de exercer a prática.
Estamos
sempre esperando sintomas repertorizáveis para dar um remédio
ao paciente.
Vamos
de uma vez por todas começar a ouvir nossos pacientes quando
nos falam do gênio de seu remédio.
O caso
era de um homem mais velho, e a única coisa que faz o médico
é sublinhar, "isto é difícil porque o
duro, porque o que me custa", claro, são obstáculos,
tudo isso não está no repertório, porém,
depois de haver estudado, de Ter estabelecido a hipótese
de um medicamento, conclui o médico francês, "aqui
não teria mesmo que repertorizar, um Senhor cujo leitmotiv
de vida é o árduo, o difícil, o obstáculo,
é Verbascum" e o resultado foi extraordinário.
Temos que pensar que passamos de uma homeopatia para outra, do contrário,
não tiramos proveito de todo este trabalho.
Querendo
ou não, enfim, encontramos solução para algo
que me desesperava quando era jovem. Passava uma noite repertorizando
um caso e no dia seguinte dizia a meu pai: "esta paciente é
Sépia". Tem este sintoma, este e este. Repertorizei
desta e desta maneira. Meu pai, que havia visto a paciente comigo
me dizia: "Sim, tem os sintomas de Sépia mas não
tem o gênio de Sépia, é outro medicamento".
O que era o gênio? Por Deus! E ele tinha razão, eu
dava Sépia e não acontecia nada. Os antigos homeopatas,
os intuitivos, captavam algo que estava por detrás do fenomenológico,
se os sintomas estavam presentes, porque o remédio não
dava resultado?
Porque
havia outra cosia, que fazia cobrar uma significação
distinta da sintomatologia e que havia que prescrever por isso.
Com este trabalho estamos buscando o que os antigos chamavam de
gênio do medicamento, que em uma linguagem Kantiana, e não
Kentiana, é o noúmeno do medicamento, o que domina,
comanda, explica e determina o fenomenológico estrigo. É
evidente.
Um
raciocínio que não se faz, por exemplo: medo das tormentas,
é uma forma pessoal que determinada pessoa expressa um sentimento
mais profundo que pode se expressar de outra maneira, aprendemos
isso com nossa forma de trabalhar. Temos todo o direito de prescrever
Mancinela, a um paciente com medo das tormentas, ainda que Mancinela
não figure na rubrica fria e fenomenológica do medo
das tormentas. Por quê? Porque Mancinela tem medo ou sensação
de estar possuída pelo demônio (delusions - possessed,
being) e este sintoma é analógico a medo das tormentas.
O experimentador, sensível a Phosphorus, que diz claramente
medo das tormentas, está querendo dizer esse medo da sensação
demoníaca que Mancinela diz claramente. E nós, presos
ao fenômeno exato. Foi isso que a metodologia e nossa maneira
de trabalhar nos fez compreender. Creio que é importante,
em nosso momento de evolução, que tenhamos em conta
no trabalho que começamos agora, que o mais importante é
o que temos que manejar agora: se entendi qual o problema de Mancinela,
através de certos experimentadores que me permitiram, graças
ao esquema referencial, graças a compreensão da enfermidade
única e pessoa, entender o drama do verdadeiro paciente Mancinela...
Como se apresenta este drama nas pessoas que o expressam de outra
maneira e que quer dizer o mesmo? Este é o futuro deste trabalho
que fazemos.
No
caso em questão, se o paciente diz: "o difícil,
o árduo, o duro". Basta encontrarmos o noúmeno.
Quem está problematizado pelo difícil, o duro, os
obstáculos? Verbascum! Ainda que não tenha os sintomas,
é Verbascum. Esse é o famoso gênio do medicamento.
O fundamental é que agora temos uma metodologia que nos permite
chegar a essa compreensão. Antes não, estávamos
no fenômeno, medo das tormentas, estavam os medicamentos onde
os experimentadores lhe disseram assim e não com as suas
analogias, porém com este trabalho, agora sabemos que temos
que estudar as analogias de medo de tormenta, isto é a chave
do que estamos fazendo, é claro que se continua levando adiante
o tradicional, graças a Deus, descobrimos tanto. Quando vemos
casos clínicos que modificaram, poderíamos dizer,
de uma maneira quase que milagrosa, acompanhados por uma mudança
de atitude do sofrimento existencial, isto é, na enfermidade
individual, e que dá razão a Hahnemann quando dizia
que um paciente quando bem atendido pela homeopatia, nos leva a
assistir a um novo nascimento desse ser humano. Não eram
frases de Hahnemann. Ele tinha visto e nós vemos agora.
Não
é só o conhecimento do valor da analogia, é
o valor, também do conhecimento real do que é a enfermidade
miasmática, do momento miasmático, que modifica totalmente
a compreensão do sintoma isolado. Quantos anos nós
passamos esperando que se curasse um enfermo ditador, com os 17
remédios que figuram na rubrica Dictatorial? Dictatorial
não é um sintoma de uma pessoa, é sintoma de
uma atitude, isto é, todos os medicamentos podem ser ditadores,
com distintos objetivos, o que quer conseguir com seu ditatorialismo?
Se for ditador, não quer dizer que tenha que responder a
algum desses 17 medicamentos. Porque não é sintoma
de um paciente, é sintoma de uma atitude miasmática.
Já avançamos, demos um passo muito importante com
esta revisão crítica da homeopatia. O que importa
não é se ele é ditador de uma maneira marcante,
o que importa é saber o que quer buscar com o seu ditatorialismo.
Por exemplo: "Eu quero que os demais sejam efetivos em seu
trabalho". Ah! Agora sim, eu gosto mais. Qualquer remédio
com sua problemática distinta, profunda, chegando na etapa
terciária da psora reativa, pode ser ditador se for egotrófico.
Ao invés de buscarmos o egotrófico, temos que buscar
o porque da egotrofia, o motivo, o motivo noúmeno.