O difícil
exercício da homeopatia é virtualmente o exercício
de um artesanato médico, tais a atenção e a
delicadeza com que cada uma de suas etapas deve ser manejada, e
o equilíbrio entre técnica e arte que dele se exige.
Erros na condução da anamnese, na identificação
de sintomas, em sua transposição ao repertório,
na escolha de uma estratégia repertorial adequada, no estudo
de matéria médica comparada - muitas são as
armadilhas no caminho da prescrição-similimum, independentemente
do que se considere como digno de curar no enfermo.
Um
erro comum que cometemos é o que se pode chamar de 'vício
repertorial', quando, mimetizando a construção do
repertório, recortamos a fala do enfermo em 'sintomas' -
refiro-me aqui a sintomas representados em repertório. Estaríamos
tomando como missão máxima, no momento da anamnese,
a descoberta de sintomas próprios à repertorização,
por entendermos que, sendo 'repertorizáveis', praticamente
garantiriam a prescrição-similimum.
Não
há neste comentário nenhuma crítica à
repertorização ou ao emprego dos repertórios.
Todos os homeopatas devem conhecer muitíssimo bem o repertório,
a lógica de sua estrutura, e ser hábeis na localização
dos sintomas e sua justa equalização. Não há
homeopata sensato que recrimine seu uso judicioso. Quero apontar
aqui para uma deformação na escuta da fala do paciente
que leva o homeopata a focar sua atenção mais em sintomas
que na história que contam. Expressando de outro modo, o
"vício repertorial" deve sua origem mais à
má educação dos sentidos que a um apego indevido
ao repertório.
Malcomparando,
seria como o caso de um ouvinte que desse atenção
mais às notas musicais que à música em si,
incapacitando-se para reconhecer seu encadeamento harmônico,
seu sentido melódico, sua ênfase rítmica. Para
a fruição da música é inútil
a identificação de notas, é fundamental o reconhecimento
de como se combinam, se integram, se sucedem e variam no tempo.
No nosso caso temos de educar nossa escuta tanto para "ouvir"
sintomas quanto para "ouvir" a história do paciente.
Os
sintomas, como as notas musicais, entoam a "música"
do enfermo, nem sempre constituindo - do ponto de vista do homeopata
que os colhe - um fim em si mesmos. Eles contam uma história,
quase sempre cifrada, e a geografia corporal - isto é, o
variado complexo de acidentes orgânicos que lhe corresponde
- inflamações, ulcerações, tumorações,
etc. -, conta idêntica história. Se aceitamos a idéia
de um enfermo unitário - afinal, como delimitamos precisamente
as instâncias da "mente" e do "corpo"?
-, segue-se que não pode haver ambigüidade entre mental
e orgânico. Os sintomas, assim, não devem ser apenas
colhidos, mas integrados. Seu arranjo de modo algum é casual;
há nele uma nem sempre aparente lógica de organização.
Ao
verificarmos que inúmeros sintomas são compartilhados
por muitos medicamentos, somos obrigados a supor que cada um deles
- embora idênticos à primeira vista - represente algo
diferenciado na história particular de cada medicamento ou
enfermo, o que os torna absolutamente distintos, e mais que isto:
exclusivos. A 'ilusão de ser insultado' de Palladium, por
exemplo, é inteiramente diferente da de Alcoholus. A 'sensação
de leveza' de Ginseng é inteiramente diferente da de Hydrogenium.
Ou, voltando ao nosso exemplo, o mi menor da Quinta Sinfonia de
Beethoven, por estar integrado numa rede singular de notas, apresenta
um efeito ou expressa algo bastante distinto do mi menor encontrado
no Samba do Avião. Isto equivale a dizer que não existem
dois sintomas rigorosamente idênticos quando contemplados
desde a perspectiva da totalidade. A rigor todo sintoma é
exclusivo.
Há
algo anterior aos sintomas, algo que determina seu caráter
próprio - a singularidade do enfermo. A singularidade do
enfermo se representa por sintomas. Conceitos como 'totalidade de
sintomas', "síndrome mínima de valor máximo",
o "sistema de sintomas-chave" de Guernsey, o sistema de
pontuação repertorial, enfim, as várias modalidades
de valoração de sintomas e métodos de prescrição
são de fato artifícios técnicos a serviço
da identificação da singularidade do enfermo.
Repito:
sintomas expressam a singularidade do enfermo. Há muito sabemos
disso. E é esta a razão para atribuírmos a
sintomas que consideramos raros, característicos e peculiares
um valor maior: eles mais explicitamente revelam tal singularidade.
Entretanto, se pudéssemos entender uma lesão óssea
tão prontamente como entendemos um sintoma mental, verificaríamos
que ambos estariam transmitindo a mesma mensagem reveladora da singularidade
do enfermo, e seríamos capazes de tomá-los não
apenas como elementos de uma comunicação aparentemente
truncada, mas como signos de uma linguagem inteligível em
sua sintaxe e gramática. (Talvez cheguemos um dia a estabelecer
o diagnóstico medicamentoso via histopatologia, identificando
um melanona de Ambra grisea, uma pancreatite de Cuprum metallicum...)
Um
problema adicional em relação à inteligibilidade
do sintoma orgânico: ele normalmente não é auto-explicativo.
Se um paciente, como um que acompanhei, fita o sol até à
cegueira, qual o sintoma? E mesmo diante de certos sintomas mentais,
somos imediatamente levados a interrogar os seus porquês.
Se um paciente tenta suicídio, qual o sintoma? Assim, quando
nos restringimos a colher o sintoma isolado do contexto próprio
da totalidade, podemos estar perdendo o principal - sua motivação.
Um
sintoma é um sintoma é um sintoma?
Como
não há indivíduos sãos miasmaticamente,
devemos alterar o aforismo "tratemos o enfermo, não
a enfermidade" para "tratemos o indivíduo, não
a enfermidade", por um duplo motivo: primeiro, para que lembremos
que não é obrigatório que o indivíduo
apresente sintomatologia clínica para que seja possível
seu diagnóstico medicamentoso; segundo, para que lembremos
que o tratamento deve fundamentalmente visar a originalidade do
indivíduo, esteja ela representada numa patologia ou não.
Idealmente o princípio da semelhança deve ser aplicado
ao que o enfermo "é", não ao que o enfermo
"apresenta".
O materialismo
que nos foi infundido nas escolas médicas ainda nos faz pensar
que como clínicos somente podemos oferecer uma terapêutica
que confronte o patológico, enquanto que como homeopatas
podemos balizar nossa conduta pela "excentricidade" do
enfermo. O sintoma, assim, deve ser redefinido para incluir qualquer
categoria em que as peculiaridades do indivíduo estejam representadas.
A ocupação do enfermo, por exemplo, deve chamar nossa
atenção, não apenas por apontar a possibilidade
diagnóstica de uma doença profissional, mas também
por ser um possível indicativo de sua conformação
psórica. Um diplomata de carreira pode revelar um Natrum
carbonicum; um aviador, Aquila chrysaetos; um escultor, Alumina;
um assistente social, Drosera; um acrobata, Aranea diadema, um relojoeiro,
Argentum nitricum; etc. (Lembro que certa vez, tentando encontrar
uma peça para um relógio de pulso antigo, fui encaminhado
a uma loja no centro da cidade, que, me garantiram, certamente teria
a tal peça. Não era preciso ser homeopata para se
impactar com o ambiente que encontrei: todas as paredes da loja,
o teto inclusive, eram cobertas por relógios de todos os
tipos - ampulhetas, cuco, mecânicos, de corda, a bateria,
solares, grandes, minúsculos, antigos, modernos, de bolso;
o dono da loja usava três relógios em cada punho, e
se ouvia em alto e bom som a rádio relógio, anunciando
a hora a cada 15 segundos! Não era uma relojoaria comum,
igual a tantas outras. Era possível sentir-se ali a obsessão
pelo tempo.) Um passatempo, como o de colecionar borboletas pode
sinalizar a marca psórica do indivíduo. Ou seu interesse
por polvos. Ou por plantas carnívoras. Ou seu modo de vestir
- que cores prefere? que adornos usa? (Acompanhei mais de uma vez
mulheres em boa evolução com Lachesis cujos adornos
- braceletes, tiaras, pulseiras, brincos - tinham todos o mesmo
motivo: cobras.) Ou seu modo de falar. Ou seu modo de decorar a
casa. Ou sua identificação com personagens literários
ou figuras políticas ou mitológicas ou mesmo animais.
(Certa vez me senti autorizado a prescrever Formica rufa, em razão
de o paciente haver afirmado categoricamente que "vivia como
uma formiga".) Tudo, enfim, que seja revelador de sua conformação
psórica pode ser considerado sintoma. Esta é a razão
que me faz preferir chamar de "excêntricos" os sintomas
que normalmente chamamos de "raros, peculiares e característicos",
porque, tomado em sua dupla acepção, o termo dá
idéia tanto do "que se desvia do centro ou está
fora de proporção" quanto de "original,
extravagante". O sintoma - seja característico, raro
ou peculiar - pode não ser considerado rigorosamente como
"patológico", enquanto que jamais deixa de ser
"excêntrico".
Pratico
homeopatia seguindo algumas "crenças". Acredito,
por exemplo, que o enfermo é único. Apenas em razão
de despropósitos conceituais podemos conceber que o enfermo
"tenha-se tornado" Bryonia; ou que tenha sido ontem Bryonia,
e hoje é Silicea. Ou que sua pneumonia "seja" Bryonia,
e sua artrite, Silicea. Nenhum enfermo é Nux moschata da
cintura para baixo, e Opium da cintura para cima. Nenhum enfermo
é metade Cubeba, metade Heloderma. Isto me obriga a pensar
que o similimum é único, invariável. O indivíduo
será Bryonia na infância, na vida adulta, na velhice.
Apenas variando, segundo as limitações e possibilidades
de expressão em cada etapa de vida, o modo como indicará
que é Bryonia. Este será sempre o similimum do indivíduo,
e apresentará uma ação resolutiva tão
absoluta quanto possível tanto em quadros crônicos
quanto agudos. Acredito, como Kent, que "é incongruente
e irracional pensar que há várias doenças ativas
no organismo ao mesmo tempo". Quando o suposto similimum não
atua satisfatoriamente em um quadro agudo, mesmo havendo produzido
uma aparente boa evolução do quadro crônico,
tornam-se obrigatórios o reestudo do caso e a troca de medicamento.
Acredito
também que o paciente pode ser entendido. Assim, evito apenas
"reconhecer" os sintomas; evito montar equações
simplificadoras como: "sintoma 1 + sintoma 2 + sintoma 3 =
medicamento X. Os sintomas são peças móveis,
podendo se encaixar no quebra-cabeças que é o enfermo
em posições, perspectivas e por motivos diferentes.
Para mim, o paciente sempre se apresenta como um enigma, mais que
como portador de um problema. Ou, visto de outra forma, o problema
é o enigma. E não devemos atender à sua demanda
por tratar tal e tal queixa, sem pelo menos tentar desvendar - na
medida do possível - o enigma que ele é. Não
devemos ceder ao enfermo a prerrogativa de julgar o que seria digno
de nossa atenção de "curadores". Em geral
o enfermo pretende uma solução imediata para um problema
remoto, uma solução local para um problema incircunscrito.
O enfermo vê apenas o aparente, enquanto nós podemos
nos colocar na privilegiada posição de contemplar
o íntimo - no nosso caso, o miasmático. Devemos, sempre
que possível, pensar globalmente e atuar globalmente. Esta
é em geral a postura que adoto frente a meus pacientes. Por
mais banal que seja a queixa, sempre os vejo como grandes enigmas,
e me dedico a decifrá-los. Tento vislumbrar o fio da meada
da complexa rede de sintomas que o paciente tece. O importante é
reconhecer o "enredo" dos sintomas, independentemente
da idade, cultura, sexo e religião do paciente. Diferentes
conjuntos de sintomas podem conter - e contar - o mesmo "enredo".
Uma
das primeiras providências que considero nesse sentido - identificar
o "enredo" dos sintomas - é a de tentar reconhecer
"temas" no paciente. A alusão a "temas"
mais antiga que conheço data de 1901 e encontra-se na 2a
edição do Guia Terapêutico Homeopático
de Nash, no relato de um caso de Stramonium, mas o conceito foi
estruturado modernamente por Masi-Elizalde, e desde então
aparece sendo aplicado com sentidos e em contextos diversos. "Tema"
é por ele definido como uma "constante de vulnerabilidade
ou de reatividade", ou seja, tudo que indique um padrão
de sofrimento ou de reação contra tal sofrimento constitui
um "tema". Uma modalidade pode constituir um tema. Assim,
"tema do crepúsculo", caso o enfermo apresente
sintomas que agravem no crepúsculo.
Um
"argumento" reconhecido na história do paciente
pode constituir um tema. O paciente sente-se "inválido",
"um aleijão", "um torto": "tema
da invalidez".Se o paciente se compadece do sofrimento dos
animais e apresenta ilusões com animais, constituímos
o "tema dos animais", que incluirá não apenas
os medicamentos das rubricas repertoriais correspondentes,
MIND;
DELUSIONS, imaginations; animals, of /
MIND; SYMPATHETIC, compassionate; animals; only for,
mas também os presentes em rubricas que compartilham o mesmo
"mote", por exemplo:
MIND;
CARES, worries; full of; nature, for, animals, plants etc. /
MIND; CRUELTY, brutality, inhumanity; animals, to /
MIND; DREAMS; animals, of /
MIND; FEAR; animals, of /
MIND; IMITATION, mimicry; voices, motions and gestures of different
animals, of /
MIND; JEALOUSY; animals and objects, of /
MIND; LOVE; animals, for /
GENERALITIES; FOOD and drinks; feces, desires; animal.
Qual
a vantagem disto? Contornar as limitações dos sintomas
como se apresentam à matéria médica e se representam
no repertório. O tema, ao valorizar o "enredo"
dos sintomas (em detrimento de sua forma estrita de expressão)
cria um conjunto de referências cruzadas automáticas
entre eles, que reduz o risco de se tomá-los literalmente.
Em
nosso exemplo o tema prevê a possibilidade de um paciente
que, em certo momento miasmástico, ame animais, em outro,
seja cruel com eles. Importa pouco que o paciente apenas relate
'compaixão' e 'ilusões' com animais, já que
é possível, é provável, que ele em algum
ponto de sua existência apresente ou tenha apresentado também
'sonhos' ou 'medo' ou 'inveja' ou 'aversão' ou 'cuidados'
em relação a eles.
O tema,
portanto, é uma dado informativo mais abrangente que o sintoma.
Se o paciente apresenta um anseio por luz, em mais um exemplo, o
"tema da luz" incluirá não apenas os medicamentos
que figurem na rubrica específica
MIND;
LIGHT; desire for, e nas imediatamente associadas,
MIND;
DELIRIUM; light, with desire for /
MIND; INSANITY, madness; company, with desire for light and /
MIND; LONGING; sunshine, light and society, for /
MIND; LIGHT; desire for; company, and /
MIND; LIGHT; desire for; menses; during /
MIND; LIGHT; desire for; menses; after /
MIND; LIGHT; desire for; sunlight /
MIND; MANIA, madness; desire for light and company, with /
EYE; PHOTOMANIA /
EYE; PHOTOPHOBIA; daylight; desires lamp light,
mas
os de todas aquelas em que a temática da luz - e de sua falta
- esteja representada. Assim, cobrimos a escuridão, os objetos
brilhantes, a luz de velas, a luz do sol, a aurora boreal, etc.
Há
pacientes em que o tema argumental se desdobra em tantos sintomas
que fica evidente a correção de enfatizar-se o conteúdo
em detrimento da forma que o conceito de tema encerra. Gostaria
de tomar como exemplo uma paciente que acompanho há 17 anos.
Alguns trechos de seu relato em momentos distintos do tratamento:
Sente-se
suja, repulsiva.
Sente-se fedorenta.
Sente um gosto na boca que lhe dá nojo.
Sensação de merda pelo corpo.
Sensação de cocô na garganta.
Sonha que está em uma banheira cheia de merda.
Sonha que tem de acomodar visitas em casa, mas há bosta de
vaca debaixo dos colchões.
Sensação como se espalhasse pedacinhos de merda.
Nojo
do chefe. (Sonhos eróticos com o chefe.)
Nojo do dedo do padre que lhe dava a hóstia em criança.
Nojo de si própria.
Sensação de não ser digna de ser amada por
ser repulsiva.
Sensação de podridão interna.
Decepção ao constatar a banda "podre" da
terapeuta que a acompanha.
Sensação
de estar "estragada".
Sonha com coisas estragadas.
Sonha que a mãe tem um carnegão.
Sonha com vermes.
Sonha que saem vermes dos cravos que espreme.
Sente-se feliz quando espreme cravos.
Sonha que há uma minhoca em seu prato.
Sente-se suja quando menstrua pouco.
Sempre
se relaciona com homens "meio apodrecidos".
Evita sexo oral para não "sujar" a garganta.
Sente nojo, repugnância do hospital psiquiátrico, uma
"pocilga". (" Se tratasse de loucos, vomitaria o
tempo todo.")
Teme morrer e que demorem a achá-la, já que vive só;
mas lembra que a empregada vem toda semana, e que por isto vai "ficar
podre só por sete dias".
Adora jejuar e ter diarréia porque "parece uma faxina".
Trata-se
claramente de um mesmo tema, presente em sensações,
sonhos, ilusões, atitudes e linguajar.Provérbios,
máximas, aforismos, adágios, ditados populares, expressões
em sentido figurado, gírias, termos pejorativos, palavras
que o paciente utilize muito freqüentemente ou que sejam incomuns,
pitorescos, podem constituir temas - são os chamados temas-palavra.
Cito o caso de uma paciente que a propósito das coisas mais
díspares usava a palavra "elo" uma dezena de vezes
a cada consulta: "tema do elo". Ou o paciente que adorava
repetir que se devia "separar o joio do trigo". Ou o que
empregava a expressão "calcanhar de Aquiles" para
indicar a debilidade da relação amorosa, do vínculo
com o trabalho, do país, etc.
Para
reconhecer certas associações entre linguajar e medicamento,
utilizo com certa freqüência um índice por mim
compilado que atualmente conta com cerca de 3000 expressões,
e também um banco de temas de aproximadamente 300 medicamentos.
Sempre que os consulto com proveito fico com a impressão
de que o repertório do futuro adotará em alguma medida
a estrutura de um "thesaurus", mesmo mantendo os sintomas
do repertório como o conhecemos hoje.Regiões corporais,
órgãos e tecidos eletivamente acometidos ou tipos
de alterações morfo-funcionais preferenciais podem
igualmente constituir temas. Assim, o "tema do hipocôndrio
direito", o "tema do baço", o "tema das
verrugas", o "tema das hemorragias", o "tema
das articulações", o "tema da peristalse
reversa", o "tema da afonia", etc.A seguir tento
evidenciar alguma relação de sentido entre os temas,
isto é, agrupo temas. É o que chamamos de "agrupamento
temático". Por exemplo, podemos agrupar os temas das
"dores em queimação" e do "fogo",
em vista de sua evidente conotação.A seguir distribuo
os sintomas presentes entre sintomalogia de "sofrimento"
e de "defesa". Assim, "medo de animais", por
exemplo, figurará como sintoma de sofrimento, e "cruel
com animais", como sintoma de defesa.
Deus
no Laboratório
A
idéia subjacente a este modelo de abordagem do paciente homeopático
é bastante simples: há no enfermo um sofrimento original,
endógeno, essencial - uma "úlcera vital",
como expresso por Kent -, que é o pivô de toda a sintomatologia
e responsável por ela se constituir numa rede complexíssima,
mas congruente e inteligível de sinais. A investigação
- que se inicia pela colheita de sintomas, passa por sua conversão
a temas e de temas a agrupamentos temáticos, pela identificação
dos conjuntos de sofrimento e reatividade, entre outras etapas -
objetiva a revelação deste sintoma-fonte. A concepção,
que exporei apenas brevemente, é de Masi-Elizalde, e desde
sempre causou polêmica entre os homeopatas. Não é
de fato científica, e não vejo como possa algum dia
sê-lo em vista da improbabilidade de se consubstanciá-la
"in toto", mas considero isto absolutamente irrelevante,
e como prático, não esperarei que a ciência
examine Deus em laboratório para confirmar ou desatourizar
minhas condutas clínicas. O curioso é que tal condição,
a de não ser "científica", justifique a
reprovação a um modelo teórico-prático
- que deveria impor-se por sua coerência interna e por prover
respostas lógicas a problemas doutrinários e técnicos
até então insolúveis - num saber, o homeopático,
repleto de categorias e conceitos não considerados ou simplesmente
rejeitados pela ciência, como os de "força vital",
"supressão", "metástase mórbida",
"doses infinitesimais", "miasmas", entre outros.
(E o lamentável, o patético, é que muitíssimas
vezes a concepção não é confrontada
como deveria ser, com argumentos, para que todos - defensores e
oponentes - pudessem tirar alguma vantagem do debate, mas com a
mais rala intolerância, que costuma variar da xenofobia ao
nonsense: já ouvi da boca de alguns colegas que tais idéias
não deveriam merecer consideração, porque o
autor é "um argentino", ou porque se trata de um
"fumante inveterado"! Em geral, e não por acaso,
são os que praticam a homeopatia com mentalidade de cirurgião.)Para
que seja possível a compreensão do enfermo, devemos
integrar todos os planos de expressão de sua sintomatologia,
e reconhecer neles o fio condutor que lhes dá sentido e justifica
doença clínica, sensações, desejos,
sonhos, atitudes. Quando compreendemos que Eryngium aquaticum, diagnóstico
diferencial de Natrum muriaticum, sofre por perceber que não
é possível conservar perpetuamente a vida, entendemos
que deteste a idéia de envelhecer, a idéia do decaimento,
da decrepitude, que sonhe com múmias, e que melhore próximo
ao mar - símbolo da vida. Esta é a sua enfermidade,
o que chamamos de psora primária. Quando compreendemos que
Arnica montana sofre por sentir-se vulnerável - e esta é
a sua enfermidade -, entendemos a razão dos transtornos por
traumatismo, do temor a ferir-se, dos sonhos com acidentes, da recusa
à ajuda médica, já que "está bem",
e até do seu organotropismo - não casualmente Arnica
é um vulnerário. Ou seja, identificamos o mesmo estigma
"essencial" - em oposição a acidental -
tanto na natureza do indivíduo quanto no da substância-similimum,
o que denota a legitimidade do princípio da semelhança.
Quando compreendemos que Natrum carbonicum sofre pela existência
da desarmonia - e esta é a sua enfermidade -, elucidamos
não apenas suas atitudes de arbitragem, mediação
e conciliação, que compõem uma modalidade possível
de defesa contra o sofrimento - no caso objetivando a instauração
da harmonia -, o que chamamos de psora terciária, mas também
sua agravação pela música - entendida como
combinação harmônica de tons - e até
sua deselegância. O mau gosto no vestir de Natrum carbonicum
é uma determinação miasmática, não
cultural, e denota uma aceitação da desarmonia.
A enfermidade,
assim, é única, acomete toda a economia, e se revela
nos diversos planos orgânicos segundo suas respectivas capacidades
de expressão. (Como disse, um sintoma orgânico é
tão revelador, embora não tão imediatamente
inteligível, quanto um sintoma mental, e muitas vezes temos
de apelar a disciplinas como a simbologia para entender seu significado.)
O caráter que a enfermidade miasmática assume depende
das determinações que o paciente imprime à
sua conduta. Resumidamente, o paciente em sofrimento "puro"
encontra-se em psora primária, isto é, não
há um cenário definido, um contexto, para o sofrimento
- "medo"; o paciente que projeta seu sofrimento no meio
- "medo de sofrer um acidente" - se desloca à psora
secundária; e o que interage com o meio visando proteger-se
do sofrimento - "cautela para não sofrer acidentes"
- passa à psora terciária. A psora terciária
admite duas modalidades principais de defesa, que apenas mencionarei:
a egotrófica, de negação do sofrimento - "nada
pode me afetar, sou invulnerável" -, e a lítica,
de resignação frente ao sofrimento - "por mais
que me acautele, vou sofrer um acidente e me ferir - ou destruição
- "vou ferir para não ser ferido". O importante
é que se trata, na verdade, de um único e mesmo processo:
a enfermidade-sofrimento, que se desdobra na enfermidade-defesa,
ou seja, a enfermidade é unimiasmática. O enfermo,
tendo sucesso em proteger-se do sofrimento, fixa-se numa atitude
de defesa ou noutra, ou no caso de fracassar, vivencia uma crise
psórica, em que o sofrimento eclode, ou altera a defesa.
Isto é o que Masi-Elizalde define como "dinâmica
miasmática": o enfermo em geral transita entre os miasmas,
passando do sofrimento à defesa, ou da defesa ao sofrimento,
ou de uma defesa egotrófica a uma lítica ou vice-versa.
A implicação semiológica deste conceito é
clara, e justifica sua inclusão como uma etapa de investigação
do enfermo e do estudo da matéria médica: como há
coerência entre sofrimento e defesas, podemos inferir a enfermidade
do indivíduo, e portanto estabelecer o diagnóstico
medicamentoso, pelo modo como se defende. E mais, o conceito de
dinâmica miasmática fornece o mais confiável
parâmetro para o seguimento do caso. A vigilância miasmática
é fundamental para afirmar-se que o paciente está
em processo de cura ou não. Jamais devemos nos contentar
apenas com a suposta "sensação subjetiva de bem-estar"
afirmada pelo enfermo. Um medicamento similar, portanto inadequado,
pode produzir uma acomodação miasmática reativa
mais bem-sucedida que não apenas resulte em melhora clínica,
como também em conforto mental. Assim, sempre acato a norma
técnica de interrogar sobre a melhora do paciente.
Trabalho
sempre com a expectativa de que, independentemente do prognóstico
clínico firmado - de funcional a incurável -, o processo
de cura homeopático engendre no paciente uma inquietação
de ordem metafísica, que o leve a ocupar-se da questão
transcendente que permeia a sua existência, a mesma que, negligenciada,
enferma-o, e considerada, impele-o vocacionalmente à sua
respectiva felicidade de homem. E "ocupar-se da questão
transcendente que permeia a sua existência" é
tarefa mais mundana do que parece. Um indivíduo Aquila chrysaetos
em processo de cura pode indicar a inquietação existencial
própria do processo de cura ao estudar o vôo, ao aderir
ao prosaico passatempo do aeromodelismo ou ao dedicar-se à
observação de pássaros. Um Argentum nitricum,
ao interessar-se por relógios. Um Alumina, por escultura
em barro.
Muito
resumidamente estas são as idéias que tento pôr
em prática em meu dia-a-dia. Não é tarefa fácil,
mas mesmo assim me sinto recompensado por dedicar-me a aplicá-las.
Elas compõem uma concepção que contempla o
drama do enfermo sem banalizá-lo, e independentemente de
sua correção ou de sua abrangência como princípio
explicativo do fenômeno do adoecimento, certamente faz justiça
ao verdadeiro espírito da homeopatia.